Diversas têm sido as discussões envolvendo quem tem direito prioritário à vacinação contra a covid-19, quer por conta de denúncias de fura filas por parte de grupos empresariais, quer pela inserção forçosa de categorias nas listas oficiais, valendo-se de brechas deixadas pelo programa nacional de imunização contra o coronavírus. Reportagem trazida ontem pelo jornal Folha de São Paulo mostra que ao menos 450 funcionários públicos ligados à Secretaria de Estado da Saúde, muitos na faixa de 20 a 30 anos, foram vacinados no mês de fevereiro, mas boa parte deles não atua na linha de frente do atendimento a pacientes covid, e outros tantos estão em home office. Em outras palavras, são pessoas que não têm nenhum contato com os doentes, com os médicos ou com materiais contaminantes que ofereçam risco, como testes laboratoriais e outros insumos. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Por outro lado, crescem os movimentos que reivindicam a inserção de categorias que, embora não figurem na lista de prioridades, estão, sim, expostas ao público, não têm como fazer home office e correm o risco diário da contaminação. Na última quinta-feira, o governador João Doria anunciou acertadamente a vacinação para duas dessas categorias: policiais - incluindo guardas civis metropolitanos - e professores das redes pública e particular que atuam na educação básica, a partir de 47 anos. Para o primeiro segmento, a vacinação começará dia 5; para o segundo, dia 12. A vacinação dos 450 funcionários da Secretaria da Saúde não infringiu as regras, é verdade, já que está prevista a imunização para os servidores lotados nessa pasta. No entanto, a questão aqui não é a infração, mas o bom senso e a definição de critérios mais claros e lógicos. Que sentido faz imunizar alguém que trabalha em home office, sem contato com o público, apenas porque pertence à área da Saúde, e deixar de fora aqueles trabalhadores que diariamente se expõem ao risco? Exemplos não faltam para ilustrar grupos de pessoas que, embora não atuem dentro de hospitais, estão muito mais suscetíveis à contaminação do que pessoas em home office prestando serviços administrativos para a Saúde. Da lista fazem parte motoristas de ônibus, de taxi e de aplicativos, agentes de trânsito, funcionários de supermercados, de lotéricas, bancários, trabalhadores do comércio, caminhoneiros, cuidadores de idosos, diaristas, funcionários dos edifícios e até mesmo coveiros, apenas para citar alguns. A discussão só acontece porque o ritmo da vacinação está muito abaixo do desejável, ao contrário da curva epidemiológica. A previsão mais otimista indica que a oferta de doses de vacina de procedências variadas só será satisfatória no segundo semestre, quando tiverem desfecho as tratativas do Governo Federal para a compra de novos imunizantes. Até lá, o que se espera é uma revisão de conceitos e uma definição mais sensata do que é prioridade.