[[legacy_image_242209]] O Brasil conseguiu ganhar tempo para o Mercosul, após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter convencido o uruguaio Lacalle Pou a não fechar de imediato acordo de livre-comércio com a China. O brasileiro agiu rápido na última quarta-feira em visita ao país vizinho, oferecendo ao Uruguai a possibilidade de acessar o mercado do gigante asiático por meio de um tratado do próprio Mercosul com a China. Na verdade, a solução de Lula é bem frágil, pois não se sabe se virá dela algum resultado prático. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O presidente uruguaio, no fim das contas, mostrou que o Mercosul passa por uma espécie de crise existencial, mantendo-se, segundo ele, como um dos blocos comerciais mais fechados do mundo. Aliás, o isolamento dificulta o acesso a novas tecnologia e inibe a atração de capitais internacionais. O conflito de interesses do Uruguai com Brasil e Argentina é bem claro. As duas principais economias do bloco são mais diversificadas e possuem segmentos que ao longo das décadas se serviram de normas específicas, entre outras bondades de seus governos, para se protegerem da concorrência mundial. Já o Uruguai, que detém apenas 2,6% da economia do bloco (o Brasil, 70%), quer se abrir para a China, que produz de tudo a preços baixos e oferece crédito abundante a seus parceiros. Para o Mercosul, um tratado Uruguai-China roeria seus pilares. Desde 1995, o Mercosul adota a Tarifa Externa Comum, que é uma alíquota padronizada que incide sobre importados de fora do bloco. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, em caso de acordo Uruguai-China, como há livre-comércio dentro do Mercosul, os produtos chineses entrariam pelo território uruguaio e atravessariam a fronteira sem pagar a TEC, deflagrando uma competição feroz – lembrando que o Brasil enfrenta o sério problema de falta de competitividade (não consegue produzir mais barato do que os concorrentes externos). A formação de blocos de livre-comércio é complexa e sua maturação, demorada. Entretanto, o Mercosul tem problemas comuns aos de outras regiões do globo menos desenvolvidas ou emergentes, entre elas com países produtores de commodities que competem entre si ou com segmentos de serviços ou indústrias ainda incipientes dependentes da proteção de governos. Paralelamente enfrentam o protecionismo das economias ricas, que ganhou força com o avanço da extrema direita populista, que busca votos de pequenos agricultores. Por exemplo, o acordo do próprio Mercosul com a União Europeia, que perdeu fôlego, estabeleceu uma série de cotas (permite a entrada até uma certa quantidade por ano) devido ao temor de uma inundação de alimentos brasileiros a preços baixos. O livre-comércio traz benefícios econômicos inegáveis, mas o que se vê é que seu avanço depende de habilidade política para convencer minorias insatisfeitas e grupos influentes. Por isso, esses acordo levam décadas para saírem do papel.