[[legacy_image_202177]] A queda das vendas de bens duráveis, como veículos, móveis e eletrodomésticos, de 9,13% no segundo trimestre em relação a fevereiro de 2020 (antes da pandemia), segundo o monitor do PIB da Fundação Getúlio Vargas, é um exemplo do impacto perverso da combinação de inflação com juros altos. O índice é um termômetro importante de um segmento do varejo que depende muito de crédito, pois esses produtos geralmente são financiados devido ao preço mais elevado. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Além disso, estão pouco sujeitos aos efeitos dos programas de transferências de renda, como o Auxílio Brasil, que é mais usado para comprar alimentos e pagar contas atrasadas. Como esses produtos industrializados podem ser trocados por um usado ou ir para manutenção, seus fabricantes tendem a sofrer mais nas crises, com reflexos na geração de empregos. Mesmo que a inflação se confirme em queda, os juros e dólar altos e desemprego ainda elevado devem manter as vendas amortecidas pelo menos até o próximo ano. Outra pesquisa também indica que esse ramo vai mal no curto prazo. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre as várias categorias de industrializados, os duráveis foram os que tiveram o pior desempenho e caíram 8% no primeiro semestre em relação a igual período do ano passado. Esses resultados são em parte uma consequência das paralisações das cadeias de produção no auge da pandemia, que levaram à subida de preços das matérias-primas e à falta de microchips (componentes semicondutores usados nos automóveis e eletro-eletrônicos). Isso não só atrasou a oferta dos produtos, como forçou a alta dos preços ao consumidor final. Para piorar, a invasão da Ucrânia pela Rússia afetou os custos logísticos com contêineres e também fez disparar em curto período as despesas com os combustíveis. O índice dos duráveis é apenas um entre vários para estudar o desempenho do País, mas ele esfriao discurso de que a economia foi muito bem no primeiro semestre. Na verdade, ela superou as previsões pessimistas, mas o quadro geral ainda é muito difícil, com o varejo tentando reagir aos consumidores atolados em dívidas ou que estão com acentuada perda do poder aquisitivo. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, está coberto de razão de não participar dos festejos antecipados da queda da inflação, que dá sinais de arrefecimento, mas continua disseminada nos alimentos. É provável que o BC pare de subir os juros na próxima reunião, em setembro, mas eles devem ficar elevados por todo 2023, caindo alguns poucos pontos (hoje a Selic está em 13,75% ao ano). Dessa forma, não tem muito sentido estimular o endividamento, a não ser que seja para trocar uma dívida mais cara por outra mais barata ou para renegociar com os bancos. O que a população precisa é de maior oferta de emprego e com salários melhores do que os que estão sendo oferecidos.