[[legacy_image_205243]] Hoje, bicentenário da Independência, era para este marco histórico ser aproveitado para se discutir as transformações que o País sofreu nos âmbitos da cultura, política, economia, ciência e formação de seu povo neste período. Entretanto, uma polarização eleitoral desenfreada e o medo da violência e da ameaça ao Estado de Direito tomaram os holofotes, mas se espera que hoje seja um dia pacífico e de demonstração tranquila das preferências políticas de cada um. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! São aguardados desfiles dos partidários do Governo em Brasília e no Rio de Janeiro, enquanto em São Paulo, na véspera da reabertura ao público do Museu do Ipiranga, haverá uma festa paulista com civis e militares voltada ao marco histórico, além de eventos que costumeiramente são realizados pelos municípios em todo o País. Deve-se lembrar ainda que, dentro de 25 dias, o País voltará às urnas para a soberana escolha dos ocupantes do Executivo e do Legislativo, que tem sido respeitada sem turbulência desde a redemocratização nos anos 1980. A melhor face da democracia é que a contestação e a divergência são bem-vindas. Há um século, na Semana de Arte Moderna, os contornos históricos que marcam o contexto da Independência do Brasil em relação a Portugal já estavam presentes. Até hoje se questiona o ato de dom Pedro I em 7 de setembro de 1822 ou a visão de que a formação da nação brasileira foi pacífica, sem revoltas, e também contra uma submissão ao eurocentrismo. Não se trata de ciência exata e sim história, mas desde 1822 ocorreram fatos concretos relacionados à formação de um Estado dissociado ao de Portugal. Em entrevista ao jornal Valor, a professor de História da USP Diana Vidal conta que, após a Independência, surge o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fonte da interpretação oficial, e são criadas as faculdades de Direito em Olinda (PE) e São Paulo e o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, que formaram a elite que iria ocupar os quadros do então Estado livre de Portugal. No princípio, o aprendizado era de uma História toda europeia, que aos poucos vai ganhando relatos dos fatos do País. O bicentenário é o marco perfeito para discutir o passado e, com base na experiência, entender o País que se busca. Entretanto, nesta semana, o Supremo reforçou sua própria segurança temendo agressões. Espera-se que nada nesse caminho aconteça, pois a democracia é o melhor meio para se discutir o País e reivindicar mudanças. Mas a própria visão sobre 1822 muda a cada tempo, lembra Diana Vidal. Se no Império havia o esforço de apagar o passado colonial, na República (1889) se rejeitava o Império. Nos anos 1930, as escolas, ainda que só para as elites, têm acesso a novos textos, que olham para o passado brasileiro com visão diferente, mudando também as narrativas de 1822. Segundo a professora, na ditadura militar há uma reestruturação da visão sobre 1822, criando a epopeia do povo que não exige nem é rebelde.