[[legacy_image_292215]] A cúpula do Brics, realizada na semana passada na África do Sul, foi considerada por analistas uma derrota para o presidente Lula. A sigla representa Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que decidiram pelo ingresso no próximo ano da Arábia Saudita, Argentina, Emirados Árabes Unidos, Egito, Irã e Etiópia. Como a China defendeu ampliar o número de membros e o Brasil resistia, os chineses foram vistos como vencedores. Entretanto, a ampliação pode ter um efeito benéfico, dando mais peso diplomático ao Brics. Lula nega a pretensão de opor o grupo ao G7, que reúne os sete países mais industrializados. Mas está evidente que a China busca canais para desaguar seu novo poderio econômico, muito maior do que em 2006, na origem formal do Brics. Pelo menos economicamente o Brics já é bem forte, com 28% do Produto Interno Bruto global, enquanto o G7 não está tão à frente, com 41%. Ampliado, o Brics passará a ter 31%. Mas a participação argentina no próximo ano não está garantida. Os candidatos a presidente Javier Milei (extrema direita) e Patricia Bullrich (centro-direita) são contrários à adesão. Já a Indonésia não se interessou em fazer parte, sendo uma perda, pois é de fato emergente e uma das economias que mais crescem no mundo. Porém, ainda não é possível compreender o real papel do Brics daqui para frente e o que o Brasil quer com isso. Defendido com todas as garras por Lula, é possível que eventual sucessor do petista tenha a mesma percepção dos dois argentinos e veja o organismo como algo ideológico. Por isso, a relação do Brasil com o grupo precisa ser política de estado e não de governo. O nome Brics é invenção do economista britânico Jim O’Neil, que elencou Brasil, Rússia, Índia e China como emergentes que liderariam o crescimento global. Mais tarde, o S, da inicial em inglês da África do Sul, foi acrescentado. O futuro do Brics passa pela efetiva integração dos novos membros. Especialistas criticam que o grupo ficará mais autoritário, o que não deixa de ser verdade, mas a democracia nunca foi seu propósito, destacando os casos da China e Rússia. A impressão inicial que se tem é que o Brics migrou de seu viés econômico para o político, resultando em uma salada temperada com muitas dúvidas. Por exemplo, em caso de ação militar americana no Golfo Pérsico, como Brasil, Índia e África do Sul, bem relacionados com os EUA, deverão reagir? E para onde vai o convívio entre China e Índia (esta última é apontada pelos EUA como contraponto à influência chinesa na Ásia)? Será que os chineses vão cumprir a promessa de defender assento permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU (condição do Brasil para expandir o Brics)? Lula não está errado em inserir o País em um Brics realmente forte, pois o mundo vem se reagrupando em diversos blocos simultâneos e o Brasil não pode ficar isolado. Mas é preciso apontar quais as vantagens que se quer extrair disso.