[[legacy_image_280076]] Na última sexta-feira (7), completaram-se 15 dias da morte de dois jovens na Pista Sul da Via Anchieta: uma cirurgiã-dentista de 24 anos e o motorista de aplicativo, de 33. O carro onde estavam foi esmagado na descida da Serra por duas carretas, na pista da esquerda, destinada a veículos leves. A cena que antecede o momento do acidente é bastante comum: o veículo de passeio precisa parar ou reduzir a velocidade porque encontra pela frente um caminhão em ultrapassagem lenta. Nesse caso, porém, o caminhoneiro que vinha por trás não conseguiu frear e esmagou o carro dos jovens, que morreram na hora. O caminhão que colidiu na traseira do carro havia fugido de pesagem na balança e estava com sobrepeso, carregando 45 toneladas de soja com destino ao Porto de Santos. O acidente poderia ser classificado como mais uma tragédia do trânsito, semelhante a tantas outras que ocorrem diariamente, fruto de imprudência ou imperícia dos motoristas ou, ainda, de condições naturais repentinas, como desbarrancamento de encostas ou tempestades meteorológicas. Não foi. Há um contexto paralelo nesse acidente justamente por envolver uma estrada que representa a única ligação rodoviária para caminhões que se destinam ao Porto de Santos, e é partilhada por veículos de passeio, que ora têm a opção de descer pela Imigrantes, ora têm como única alternativa a Anchieta, especialmente aos domingos e finais de feriados prolongados. Some-se a esse conjunto de informações o fato de que o motorista que colidiu na traseira do veículo de aplicativo havia driblado a balança, ou seja, a fiscalização falhou e, a partir desse momento, provocar um acidente era algo possível e previsível. A concessionária que administra o sistema diz que disponibiliza ao Estado toda a infraestrutura para a fiscalização e segurança, inclusive com câmeras, para que a Secretaria de Segurança Pública desempenhe sua função. O episódio do último dia 23 desencadeia muitas análises, mas duas são urgentes. A primeira é que passou do tempo de se pensar em soluções que segreguem ou atenuem o trânsito entre caminhões e veículos de passeio. É uma disputa desigual quando se divide esse fluxo em uma pista com apenas duas faixas. Com projeção de crescimento na movimentação de cargas em direção ao Porto de Santos para os próximos anos, esse é um risco que só tende a aumentar, ainda que o escoamento por ferrovia cresça até 40%, como se planeja. A terceira ligação - ou ampliação de faixas nas pistas existentes - passa a ser obra prioritária, emergente. A segunda análise, e igualmente grave, é que falhas na fiscalização de caminhões são inadmissíveis, quer de peso, de freios, pneus e condições gerais do veículo. É pueril imaginar que isso ainda acontece no maior estado da federação, e envolvendo um complexo viário tão intensamente usado como o Sistema Anchieta-Imigrantes. Duas vidas foram perdidas. Quantas mais estão correndo esse risco?