[[legacy_image_286339]] Uma ala da sociedade considera exageradas as campanhas, movimentos e surgimento de entidades que defendem os direitos, a preservação e o espaço igualitário das mulheres, de todas as mulheres. Há os que dizem que esse momento guarda semelhança com o movimento feminista nascido no início dos anos 20, que reivindicava o direito ao voto, igualdade de espaços na vida pública, cursos superiores e ampliação do campo de trabalho. Depois, já nos anos 60, as questões eram mais ligadas à sexualidade e autonomia da mulher no contexto familiar. O movimento é marcado pela luta por direitos reprodutivos e liberdade sexual. Uma terceira onda trouxe maior diversidade ao movimento por meio do conceito de interseccionalidade entre gênero, raça e classe, e as vertentes do feminismo negro e discriminação racial ganharam destaque no Brasil e no mundo. Há quem fale que agora se vive a quarta onda do movimento feminista, marcada pelo protagonismo nas redes sociais, as bandeiras contra o assédio, todas as formas de violência e feminicídio, além das questões de liberdade de escolha e padrões corporais. Exageros? Parece que não, e as evidências são trazidas pela imprensa, todos os dias, e pelas redes sociais, com postagens que viralizam e se banalizam de tão comuns que já se tornaram. Na semana em que o Supremo Tribunal Federal derrubou a tese de legítima defesa da honra, usada historicamente para absolver o agressor que cometesse violência contra mulher ou feminicídio em função de ter tido sua honra atingida, uma mulher que havia sido deixada desacordada na calçada por um carro de aplicativo é estuprada. As imagens, gravadas nas ruas de Belo Horizonte na madrugada do domingo, chocam em pleno século 21 pela estupidez e covardia. De 2021 para 2022, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de estupros no Brasil aumentou 8,21%, de 69 mil para 75 mil casos, com a média de 205 casos por dia. Importante destacar que o fórum dispõe de dados oficiais, aqueles que viraram registro nos órgãos públicos. Estima-se que para cada caso registrado haja pelo menos quatro não registrados, o que elevaria exponencialmente o total apurado por ano. O Brasil avança na legislação e retrocede no comportamento, na virulência dos casos, na primitividade da violência. A quarta onda do movimento feminista, portanto, não fala apenas sobre o espaço e a relevância da mulher na sociedade, no equilíbrio da balança do universo corporativo, no pagamento de salários iguais, no direito pleno ao corpo e à forma como se quer tê-lo. Era natural que assim fosse nessa linha do tempo que começou com o direito ao voto. A sociedade retrocedeu para alguns. Ao lado dessas bandeiras, legítimas por natureza, é preciso hastear outras, mais importantes ainda, e que dizem respeito à vida e à integridade física. Em pleno século 21.