Houve manifestações no domingo em todos os Estados brasileiros. O balanço mostra que elas não foram tão expressivas a ponto de fortalecer o governo do presidente Jair Bolsonaro como esperavam seus apoiadores, mas não se pode dizer que foram um fracasso. Milhares de pessoas foram às ruas em cerca de 150 cidades, com presença significativa em São Paulo. A defesa das reformas propostas pelo governo - reforma da Previdência, pacote anticrime do ministro Sergio Moro - foi a principal motivação dos atos, mas não faltaram discursos e cartazes atacando o Centrão, bloco que reúne partidos tradicionais e que não aderiu à base governamental, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Nas ruas do país, apesar da pauta das manifestações centrada nas reformas, foi notada a defesa de temas como a volta da monarquia, a defesa da cura gay e a intervenção militar, com o forte combate ao comunismo. Não faltaram ainda críticas a entidades como o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem pra Rua, que não aderiram às manifestações, e foram considerados como "traidores", bem como a parlamentares, como a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL), além de xingamentos e ameaças aos profissionais da imprensa na cobertura dos atos. Em Curitiba, for arrancada da fachada do prédio da Universidade Federal do Paraná (UFPR) uma faixa com dizeres "Em defesa da educação". Pesquisadores da USP traçaram o perfil dos manifestantes em São Paulo e constataram que predominaram homens (65%), adultos com idades entre 35 e 44 anos (23%) e entre 55 e 64 anos (também 23%), brancos (66%), com renda entre cinco e dez salários mínimos (28%), com ensino superior (68%) e de religião católica (41%). Trata-se de público de classe média, com escolaridade alta, identificado com as ideias de direita, e formado por pessoas conservadoras, antifeministas e cuja referência política é o PSL. Não houve incidentes durante os atos, que é fato importante. Apesar do tom agressivo e da militância aguerrida, não se registraram excessos, e o presidente Jair Bolsonaro declarou que as pessoas foram às ruas pelo "futuro do País", pedindo paz, democracia e responsabilidade. Na realidade, as manifestações não mudam o quadro político brasileiro. O governo continua com dificuldades de interlocução com o Congresso, e certos excessos cometidos nas ruas no domingo podem comprometer relações importantes e necessárias para a aprovação das reformas, além de confrontar, de modo perigoso, o Poder Judiciário. Não se governa em clima de campanha eleitoral, com inimigos a vencer a cada esquina. O clima segue tenso e instável, e a divisão das forças que apoiam o governo - contra e a favor das manifestações - complica ainda mais sua articulação política.