[[legacy_image_344619]] O governo brasileiro começa a acompanhar amanhã a visita do presidente francês Emmanuel Macron, que vai ficar até quinta-feira no País. Ele estará no Brasil pela segunda vez, retornando em novembro para a cúpula dos líderes do G20 e em 2025 para a Conferência da ONU para as mudanças climáticas (COP30), em Belém (PA). Portanto, o chefe do Executivo da França dá muito mais espaço ao Brasil em sua agenda do que o americano Joe Biden, que nem por aqui apareceu e ainda não tem plano de fazê-lo. O interesse do europeu tem alguns pilares importantes – o acordo de livre-comércio Mercosul-União Europeia, preocupação ambiental, manter influência sobre um emergente, algo bem difícil em relação à Rússia, China e Índia, e sintonia com uma liderança adversária da extrema direita. A França há muitas décadas é apontada como potência econômica muito lenta em relação aos EUA, Alemanha, Reino Unido e Japão, mas a verdade é que continua relevante na economia, ciência, cultura e geopolítica. Macron tenta reformar o país para mantê-lo competitivo, mas a tradição trabalhista, de benefícios sociais e alto custo de vida afasta uma expectativa de crescimento mais vigoroso. A pauta modernizadora de Macron, um centro-direitista, enfrenta a extrema direita, que há tempos tem muitos votos por lá, mas que no fim das contas sempre perdia para os moderados. Agora, o radicalismo se revigora com a aversão à imigração, às leis ambientais rigorosas da União Europeia, que afeta o pequeno ou médio produtor rural, e ao livre-comércio. Neste último caso, Macron se tornou o principal opositor ao acordo Mercosul-UE ao perceber o temor do agronegócio francês ao gigantismo da produção brasileira de baixo custo. Portanto, sua reação é mais eleitoral que comercial. Oficialmente, ele alega que o exportador brasileiro não enfrenta as mesmas restrições ambientais que o europeu e que isso é uma injustiça. Macron talvez aproveite sua viagem ao Brasil para mostrar ao seu eleitor que não vai fechar o acordo com o Mercosul, em uma atitude populista com o pequeno produtor. Por outro lado será uma oportunidade para se contrapor à extrema direita daqui, que não gosta nada dele, lembrando que essa frente age de forma simultânea, com pautas parecidas, em vários países, conectando, por exemplo, trumpistas, bolsonaristas, os seguidores do argentino Milei e do partido português Chega. Articulações políticas e ideologias à parte, espera-se do presidente Lula um posicionamento de estado, defendendo as exportações do País e insistindo na viabilidade do acordo de livre-comércio, lembrando que a França há décadas é um importante parceiro comercial do Brasil. Macron também deverá cobrar de Lula alguma coerência em relação à Venezuela e Rússia, pois o Brasil tem se calado ou dado apoio velado a esses países autoritários e que não respeitam a ampla democracia.