Juros altos, economia anestesiada

Os bancos já notaram um aumento de inadimplência e, por isso, estão mais seletivos na oferta de crédito

Por: Redação  -  05/08/22  -  06:03
O Comitê de Política Monetária, do Banco Central, anunciou nesta quarta (3) o aumento da taxa Selic de 13,25% para 13,75%
O Comitê de Política Monetária, do Banco Central, anunciou nesta quarta (3) o aumento da taxa Selic de 13,25% para 13,75%   Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

O aumento dos juros básicos em 0,5 ponto percentual na última quarta-feira, chegando a 13,75%, é uma péssima notícia se for considerado o momento de recuperação do País, que depende de crédito mais barato e investimentos para gerar empregos e estimular o consumo. Entretanto, a autoridade monetária indicou que deve ocorrer mais um acréscimo de 0,25, chegando a 14% em setembro, permanecendo nesse nível por mais tempo para se observar os efeitos da atual política monetária.


Clique, assine A Tribuna por apenas R$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios!


Aliás, a decisão sobre o possível último acréscimo de 0,25 se dará a 11 dias das eleições presidenciais, deixando a taxa básica bem próxima do nível praticado no Governo Dilma Rousseff, pouco antes do impeachment, de 14,25% ao ano.


Mesmo que se critique o Banco Central, o aumento dos juros básicos ainda é a arma mais eficiente para controlar a inflação. O problema é que essa ferramenta enfrenta dificuldades para surtir efeito. O primeiro é que o aumento dos preços tem em parte sua origem no exterior, contra o qual o Brasil pouco pode fazer. Por exemplo, o petróleo poderá dar saltos se a recessão mundial não se configurar ou vier menos intensa do que se espera.


E ainda se a China mantiver sua política de covid zero, atrasando as cadeias de produção, a guerra da Ucrânia continuar impactando na oferta de grãos e fertilizantes e o transporte marítimo persistir com custos elevados.


No Brasil, o desafio é interromper o processo inflacionário muito indexado na economia, com o reajuste automático de preços com base em índices que refletem uma inflação passada ou mesmo sob impacto psicológico, como uma indústria ou um supermercado que simplesmente remarca seus produtos imaginando que todo mundo vai fazer o mesmo.


Mas há ainda outro complicador que deverá manter os juros altos por mais tempo, que é a política do Governo de injetar recursos por meio de benefícios sociais e redução de impostos às vésperas da eleição. Essa injeção de dezenas de bilhões de reais em pouco tempo terá impacto na oferta e demanda dos produtos, impedindo o arrefecimento dos preços, segundo economistas.


Por isso o próprio BC já admite tolerar alguma inflação em 2023, porque ela simplesmente estará imprevisível. Até lá é possível que o efeito da redução de impostos desapareça se os custos das matérias-primas subirem.


Por outro lado, o próprio processo mais acelerado de reabertura da economia brasileira tende a encarecer os serviços, como os especialistas já notaram no mês passado. No fim das contas, não há como escapar dos juros altos. Os bancos já notaram um aumento de inadimplência e, por isso, estão mais seletivos na oferta de crédito.


Além disso as taxas dos empréstimos desestimulam a tomada de empréstimos. Infelizmente a previsão é de que a Selic permaneça acima de 11% até o fim do próximo ano e isso vai anestesiar o crescimento da economia.


Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna. As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.
Ver todos os colunistas
Logo A Tribuna