[[legacy_image_610]] Se o presidente Jair Bolsonaro não demonstrar capacidade de reação, a semana passada poderá entrar para a história como o período em que a reforma da Previdência começou a naufragar. Não porque, na sexta-feira (22), entidades sindicais e movimentos de esquerda foram às ruas protestar contra o projeto da aposentadoria. Mas, pela grande confusão que reina dentro do Governo e que é inflamada pela guerra de tuítes. O caso mais evidente teve como alvo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Esse último atacou o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, por cobrar celeridade no trâmite do pacote anticorrupção. Em resposta, o deputado federal Carlos Bolsonaro (PSLRJ) foi às redes sociais com pesadas críticas a Maia, insinuando que o brasileiro mais poderoso do Legislativo e aliado do Governo teme o alcance do projeto de Moro e que pertence à “velha política”. A seguir, o democrata disse que não mais lideraria a negociação da Previdência. A crise Carlos-Rodrigo acirrou os ânimos entre os aliados do Centrão, que pressionam por distribuição de cargos e se veem desestimulados a defender um projeto notadamente impopular. Em consequência, o mercado financeiro, antes empolgado pela chance de aprovação da reforma, começou a derreter, com queda da bolsa de mais de 5% em uma semana e com o dólar em contínua alta rumo aos R\$ 4. Os investidores costumam antecipar tendências – se agora estão pessimistas, é porque para eles há sério risco do Governo não ter votos para a reforma. Maia e os caciques do Congresso não são dados às redes sociais. Trabalham nos bastidores, onde até os maiores inimigos acabam se entendendo, muitas vezes gerando espanto nos eleitores. Já os membros do atual governo são aptos à exposição por meio das redes sociais, saciando seu eleitorado fiel, mas sujeitando o Palácio do Planalto a conflitos até com os mais fiéis. O fogo amigo é tão intenso que a oposição, esfacelada pelos malogros e abusos das gestões petistas, não precisa se esforçar para atacar a situação. Quem domina os holofotes é a situação, mas mais para colocar panos quentes ou explicar o tropeço recente. O que preocupa é que parte da artilharia via Twitter vem da família presidencial, incluindo o próprio Jair Bolsonaro, e seus mais próximos assessores. Um deles, Filipe Martins, esquentou ainda mais o clima ao escrever que as alas antiestablishment do Governo devem se mobilizar contra a “velha política” – texto esse que foi produzido enquanto Martins acompanhava o presidente em viagem ao Chile. Dessa forma, começa-se a configurar a previsão de alguns analistas de que a relação de Bolsonaro com o Parlamento será de confronto. Exceto se o presidente demonstrar habilidade, isolar os guerreiros do Twitter e negociar a aprovação da reforma, essencial para o país voltar a crescer.