[[legacy_image_49828]] O Palácio do Planalto deu largada na semana passada a uma dupla pressão sobre os governadores. Se por um lado os aliados bolsonaristas conseguiram emplacar na CPI da Covid a convocação de nove chefes do Executivo Estadual, por outro o governo entrou com ação no Supremo Tribunal Federal para impedir medidas de restrição em três estados. Ambas as jogadas são praticamente uma encenação para manter a militância governista animada. Busca-se mostrar que houve algum tipo de desvio de recursos da pandemia (no caso dos chamados pela CPI) ou, na iniciativa junto ao STF, sinalizar aos nichos bolsonaristas a contrariedade ao fechamento de comércios. O que se pode concluir é que tais práticas dificultam o combate ao vírus em um momento de retomada da disseminação, sabendo-se que não há armas eficientes contra o novo coronavírus que não o isolamento social. O bom senso é o único caminho que o presidente deveria seguir neste momento, seguindo as recomendações médicas. O País enfrenta uma crise sanitária prolongada, que rapidamente chegará ao meio milhão de mortos – com uma estatística dessa não há como fugir das responsabilidades. São famílias que ficaram sem sustento em uma hora de elevadíssimo desemprego e negócios de serviços esvaziados. Quanto mais o governo renegar medidas duras contra a doença, mais ela vai se perpetuar, possibilitando o desenvolvimento de variantes de rápida disseminação e agressivas e perigosamente contaminantes para as faixas etárias cada vez mais jovens, que são as que ainda estão sem vacinação, portanto, vulneráveis. O esforço da cúpula bolsonarista para jogar para a torcida está bem evidente, mas é estranho que essa estratégia inclua brigar com aliados. Entre governadores de uma forma ou de outra pressionados pelo Palácio, estão adeptos de ideologia parecida ou fiéis parceiros, como Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e Ratinho Júnior, do Paraná. Porém, Bolsonaro sempre buscou adesistas e não aliados, bastando observar o poder que está concentrado no círculo familiar e na ala ideológica. O Centrão compartilha de fato desse poder, mas se trata de um acordo de conveniências, sustentado por cargos e verbas públicas. Os governadores estão cercados por desafios mais amplos ainda, considerando o avanço lulista. Muitos desses chefes de Executivo Estadual poderão ter suas reeleições ameaçadas por aliados do petista, que tentará recompor seus quadros esfarelados pelo impacto das denúncias de corrupção e a derrota devastadora de 2018. Alguns destes governadores devem torcer pela viabilidade da terceira via nas eleições presidenciais, uma chance para se distanciarem do Bolsonaro ou Lula. Porém, o terceiro nome ainda é algo bem duvidoso. Entretanto, a política está recheada de casos de traição ou rompimento e o bolsonarismo, se a economia não deslanchar de vez, poderá perder importantes apoios.