[[legacy_image_293292]] A crise da 123milhas, frustrando um grande público de classe média, exige uma atenção das autoridades não só para apoiar consumidores lesados, mas também para investigar o estrago causado na cadeia do turismo. Trata-se de um público numeroso que, se não conseguir recuperar seu investimento, deixará de viajar devido à perda financeira ou ao trauma, como aqueles que planejaram as férias dos sonhos, na qual o emocional pesa muito. Com a decisão da empresa, na terça-feira, de pedir recuperação judicial, que é uma proteção contra credores por 180 dias até reestruturar suas dívidas e dar um fôlego ao caixa, as ações da maior operadora do País, a CVC, subiram 17% ontem - isso indica o peso que a 123milhas conquistou no mercado. Por isso, mesmo se tratando de uma companhia privada, seria importante que o ministro do Turismo, Celso Sabino, se manifestasse a respeito, apoiando passageiros e os prestadores de serviços, que podem ter sido prejudicados. O problema da 123milhas está centrado nos pacotes promocionais, cuja data do voo é flexível. Porém, a empresa alegou condições adversas do mercado e ofereceu vouchers para uso apenas com produtos da própria 123milhas. Trata-se de um absurdo porque os preços do setor inflacionaram e o consumidor poderá ser obrigado a pagar preço extra, ou até mesmo não ter seu vale honrado em caso de piora da crise da agência on-line de viagens. Até agora a empresa expôs poucas informações sobre sua crise. Ao pedir recuperação judicial, a 123milhas disse dever R\$ 2,3 bilhões, mas não apresentou os credores. Não se sabe se são só bancos ou se há, por exemplo, hotéis. A crise da empresa não é uma total surpresa. O turismo foi um dos setores mais atingidos na pandemia, com muita quebra e demissões. Com a retomada, veio uma disparada da demanda seguida de aumento dos preços das passagens aéreas puxado pela valorização do petróleo. Portanto, os custos dos setor subiram, tirando a margem de ganho dos nichos de produtos promocionais. A rigor a 123milhas também pode ser considerada uma startup, que é um segmento que tem sofrido muito com a alta dos juros ao redor do mundo. Como são negócios embrionários, dependem de muito crédito para crescer rapidamente sem dependeu de lucrar no começo. No caso do Brasil, onde as taxas dos empréstimos permanecem elevadas, o impacto foi maior ainda. Assim como os produtos de maior valor, como pacotes turísticos, têm mais obstáculos para serem financiados, as dívidas das empresas também cresceram. Basta conservar as grandes varejistas em dificuldades. Entretanto, as condições de “mercado adversas” não são justificativa para desapontar milhares de clientes à véspera de suas viagens. O setor de turismo está em uma retomada muito forte e não se pode deixar que casos como o da 123milhas se repitam e abalem o ânimo dos viajantes.