A descoberta do pré-sal, rico em gás natural, reforçou a ideia de estimular esse insumo por ser mais barato e menos poluente e ampliar investimentos em novos segmentos industriais. Porém, o que dá certo no mundo tende a ganhar complicações no Brasil. Segundo o ministro da Economia, Paulo Guedes, na Europa, Estados Unidos e Japão, a molécula de gás custa US\$ 8 por milhão de BTU (unidade térmica britânica). Já os brasileiros pagam até 75% mais caro pelo mesmo combustível. Reflexo da estatização e monopólios enraizados no setor petrolífero e que também pesam no bolso do simples consumidor do botijão de cozinha. O ramo desse derivado do petróleo é cheio de restrições - uma delas proíbe uma empresa de abastecer o vasilhame da outra, o que engessa a competição. Portanto, acerta o ministro ao lançar o Novo Mercado de Gás, baseado na promessa de derrubar os preços entre 20% e 40% por meio da desestatização. O impulso inicial se dá com a saída da Petrobras dos segmentos de gasodutos e distribuição. A estatal presta grandes serviços ao País, mas sua presença em praticamente todos os segmentos da cadeia, favorecida pelo ganho de escala e seu gigantismo, inibe o ingresso de concorrentes. Sem disputa, os preços não caem e a ineficiência contamina os demais setores da economia – os combustíveis são um dos custos mais importantes para a produtividade de uma empresa. Além disso, uma companhia monopolizadora, estatal ou mesmo privada, automaticamente age para manter seus privilégios. O Novo Mercado de Gás também estimula a privatização nos estados. Guedes pretende transferir até R\$ 6 bilhões do fundo social do pré-sal para as unidades da federação que abrirem seus mercados regionais. Dessa forma, o plano é massificar o uso de gás natural devido ao preço mais em conta e gerar novos ramos industriais. O uso dessa matriz exige equipamentos específicos, criando negócios para inúmeros fornecedores. Além disso, a operação de uma fábrica alimentada pelo gás é mais barata e também a torna mais competitiva perante outros países. Hoje, a indústria brasileira encolhe a passos largos porque é cara e algo de urgente precisa ser feito nesse sentido. O grande fator que torna esse Novo Mercado viável é a matéria-prima abundante no fundo do mar. Quando a Petrobras começou a explorar o pré-sal foi surpreendida pela grande quantidade de gás associada ao petróleo. Um dos desafios, além do transporte, é convencer os consumidores a converterem sua matriz energética para o gás natural. Esse processo fica muito mais lento, se a responsabilidade dessa mudança recair apenas sobre a Petrobras. Abrindo o mercado a companhias com outras habilidades e menores, serão gerados negócios e empregos em nichos que não interessariam a uma petrolífera tão grande. Resta saber se Guedes saberá tirar sua ideia do papel. Mercado para o gás há com certeza.