[[legacy_image_340941]] A pesquisa divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) na sexta-feira apontou que 77,9% das famílias tinham dívidas em fevereiro, enquanto 28,1% estavam inadimplentes (contas atrasadas). Esses percentuais são chocantes, e indicam uma nítida limitação ao crescimento do consumo, que tradicionalmente é o que puxa o Produto Interno Bruto (PIB). Entretanto, esses dois dados embutem boas notícias, pois ambos estão em recuo, ainda que de forma tímida. De acordo com a CNC, o endividamento caiu 0,2 ponto percentual sobre janeiro (de 78,1%). A inadimplência também caiu no mesmo período de comparação e em igual 0,2% (28,3%). Mas, neste último caso, o índice está na quinta queda mensal, chegando ao menor patamar desde março de 2022. Cada pequeno recuo é valioso para a economia porque incide sobre um universo de dezenas de milhões de famílias, massa salarial de bilhões de reais e saldo devedor igualmente gigantesco. Caso esse entrave à economia seja solucionado, a renda que hoje é destinada a parcelas de financiamento, contas atrasadas e juros ficará disponível para consumo e investimento. O levantamento não traz dados sobre o impacto do programa Desenrola, de renegociação de dívidas. A iniciativa acaba no próximo dia 31 e está longe de atingir seu potencial de público. Conforme o Ministério da Fazenda, 12 milhões de inadimplentes foram beneficiados, solucionando R\$ 37 bilhões em débitos. Com uma plataforma de complexo acesso pelo portal gov.br no início, agora seu uso foi simplificado com parcerias com Serasa e Correios ou o ingresso por meio de aplicativo bancário (por enquanto, apenas uma grande instituição, o Itaú Unibanco, aderiu). Para levantar os dados de sua pesquisa, a CNC considerou cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, consignado, empréstimo pessoal e de carro, habitação e cheque pré-datado. O primeiro dessa lista é o mais preocupante devido aos juros altíssimos e à facilidade de uso, com um endividado mantendo vários cartões para se financiar o mês todo. Não é à toa que essa modalidade é a de maior contingente de endividados, sendo utilizada por 86,9% dos devedores. Mas a pesquisa embute mais uma notícia positiva, de que a queda da Selic (de 13,75% ao ano em junho passado para atuais 11,25%) já faz efeito contra essa epidemia de dívidas. Por outro lado, afirma a CNC, as famílias estão procurando menos crédito, priorizando pagar o saldo devedor. Isso deve ter relação, além da conscientização, com a redução acelerada do desemprego desde o ano passado. Desde os dois primeiros mandatos do presidente Lula, os governos têm estimulado o crescimento por meio do crédito, o que não está errado. Porém, sem o uso saudável do financiamento e taxas mais baixos, não foi uma boa ideia. Espera-se que daqui para frente o consumo se dê de forma sustentável, sem incentivos irresponsáveis.