[[legacy_image_283111]] Do tempo em que as meninas da seleção brasileira de futebol tinham que usar emprestado os uniformes da seleção masculina até a Copa do Mundo que começou esta semana na Austrália e Nova Zelândia, muitas barreiras e dificuldades já foram vencidas. E não só no Brasil, mas em todo o mundo, já que o primeiro Mundial feminino ocorreu apenas em 1991, na China, com o inexpressivo número de 12 seleções, 61 anos depois da competição mundial ser criada para os homens, em 1930, no Uruguai. Pelo tempo decorrido, é perceptível que a segregação era grande e estava enraizada em todos os países. O Brasil do futebol também demorou a existir para as mulheres. Em 1941, Getúlio Vargas publicou decreto que proibia as mulheres de praticarem esportes “incompatíveis com as condições de sua natureza”. Somente em 1979, quando o futebol brasileiro masculino já havia conquistado três Copas do Mundo, é que o decreto foi revogado.A regulamentação veio em 1983. “A história por si já fala muito. A vontade de vencer sempre, a perseverança, acreditar no nosso potencial, acreditar que é possível o futebol feminino no Brasil ser uma potência mundial”, disse Marta em entrevista recente. A Copa do Mundo feminina teve início quinta-feira e, a julgar pela quantidade de público, é possível dizer que esta será a competição com maior visibilidade, atenção e engajamento de todos os tempos. Só nos primeiros dois jogos, quase 120 mil pessoas estavam presentes. Parte dessa repercussão se dá em função de a própria imprensa, hoje, enxergar melhor a aderência que o futebol feminino ganhou, o potencial econômico que o esporte representa e quanto essa realidade conversa com outros movimentos de inclusão, diversidade, igualdade de gêneros e pluralidade. Há um ambiente favorável de aceitação e acolhimento, jogando por terra a ideia de que o futebol é um esporte eminentemente masculino, nada sintonizado com a delicadeza e a suavidade de uma mulher. É fato que movimentos assim demoram a ficar maduros porque mexem com valores e princípios enraizados na cultura humana. Exemplo semelhante há nas artes, como na dança e, especialmente, no balé, sempre associado ao universo feminino, mas hoje já incorporado em todos os gêneros. Para que o mundo chegasse a esse desenho de Copa do Mundo, mais diverso e inclusivo, muitas mulheres enfrentaram preconceito, abdicaram do convívio social e investiram os próprios recursos para se manterem com a bola nos pés. É a essas que as novas gerações devem reverência, porque abriram portas e, sobretudo, não desistiram. Que o exemplo do futebol seja replicado em outros esportes, profissões, ambientes e realidades onde, desde sempre, a predominância masculina é hegemônica. Dentro ou fora das quatro linhas, as mulheres sempre serão capazes de mostrar sua força, desde que estejam - e permaneçam - em condição de igualdade.