[[legacy_image_283910]] Desde a guerra da Ucrânia, os analistas passaram a apontar uma nova ordem mundial, com Rússia e até China em oposição ao Ocidente, e os reflexos disso para a globalização e o comércio mundial, incluindo o Brasil. Com a demora do conflito em solo europeu, que deslanchou o artifício das sanções econômicas como forma de isolar oponente, e a possibilidade de novas disputas, como Taiwan, veio uma nova tendência do lado econômico: a cadeia de fornecedores – fábricas e suprimentos minerais e agrícolas – dos países começou a ser deslocada para parceiros “confiáveis”. Entretanto, essas análises parecem se confirmar mais cedo do que se imaginava. Dados do Departamento de Comércio Exterior dos Estados Unidos, publicados pelo jornal Valor, mostram que as exportações chinesas aos EUA despencaram 25% de janeiro a maio, atingindo US\$ 169 bilhões – pela primeira vez em 15 anos, o país asiático não é o principal fornecedor aos EUA. Economistas já tinham aventado que o Brasil poderia se beneficiar dessa nova ordem mundial, pelo lado do comércio. Ao mesmo tempo em que continuaria fornecendo commodities (produtos agropecuários e minerais) aos chineses, o Brasil teria chance de se tornar base industrial e de serviços para os aliados ocidentais. Porém, pouco se escuta falar do governo algo nesse sentido. De Brasília, até agora não saiu uma política industrial consistente para tornar o produto nacional mais competitivo, uma tarefa que o País devia ter feito há muito tempo para aproveitar momentos como agora. Segundo dados do governo americano, as exportações chinesas aos EUA, de janeiro a maio, foram ultrapassadas pelas mexicanas, que somaram US\$ 195 bilhões no período. Em segundo, aparece o Canadá, com US\$ 176 bilhões, com a China em terceiro. O principal reflexo desse ranking está na decisão do presidente americano Joe Biden de exigir que componentes semicondutores (microchips usados em eletroeletrônicos e automóveis) e baterias sejam importados de países “confiáveis” – que não estariam sujeitos a sanções econômicas ou mesmo a um eventual cerco militar. Parte desse recuo chinês também pode ser atribuído ao antecessor de Biden, Donald Trump, que impôs tarifas comerciais sobre vários produtos do país asiático. Mas mexicanos e canadenses não são os únicos beneficiados. Os EUA têm buscado fornecedores na Índia e nos países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês), como Indonésia, Filipinas, Tailândia e Malásia. Os chineses sentiram o impacto e várias de suas empresas estão transferindo negócios para os membros da Asean, revelando um pragmatismo impressionante. Enquanto isso, o Brasil não consegue deslanchar as negociações Mercosul-União Europeia. Não se trata apenas de modernizar e reduzir custos da economia brasileira, mas também de desenvolver uma maior capacidade de negociar com diferentes parceiros econômicos.