A demissão do ministro da Saúde, Nelson Teich, é reflexo da decisão do presidente Jair Bolsonaro de sair do discurso e aplicar na prática a ideia de que é preciso suspender o isolamento social nos moldes atuais para reduzir o impacto da pandemia do novo coronavírus na economia. A percepção dele é de que seu governo estará todo comprometido por uma recessão que deve ser mais longa. Como se concluiu que a curva de contaminação será mais demorada do que se esperava, o chefe do Executivo foi alertado por sua equipe econômica da deterioração do mercado de emprego e do fechamento de empresas. Já há economistas que preveem queda do Produto Interno Bruto (PIB) de 5% a 7% e até de 11% na ponta mais pessimista. Apesar da possibilidade do quadro caótico ser suavizado por um bom programa estatal de estímulos e socorros, a recessão é mundial e contra ela será difícil não ser atingido. Além disso, não dá para combinar como o vírus o desenrolar da pandemia. Enquanto não houver vacina e medicamentos eficazmente comprovados, o mundo continuará refém da doença. Não há como enxergar a crise econômica à frente da saúde como mal principal. É preciso centrar o foco no único remédio eficiente até o momento, que é o isolamento. Sem ele, os impactos se espalharão por um período maior ainda. Estudo do governo americano indica possibilidade de haver até 80 mil mortes no Brasil até agosto e um pesquisador alertou que, sem qualquer isolamento, o País registraria 1 milhão de óbitos. Nos Estados Unidos seriam 2 milhões. Sem Teich, o presidente segue livre para escolher um subordinado também avesso ao isolamento. Trata-se de um esforço inútil, pois o Supremo Tribunal Federal (STF) já considerou que estados e municípios têm autonomia para adotar medidas de restrição social referentes à pandemia. Também causa estranheza o fascínio de Bolsonaro pela cloroquina. Estudos apontam que o medicamento tem uso limitado e causa complicações, inclusive cardíacas, em alguns pacientes. Até mesmo a médica Nise Yamagushi, especialista em cloroquina e candidata a ministra que se reuniu ontem com Bolsonaro, defende uso em doses baixas do remédio. Por outro lado, no Brasil, talvez pela população ser mais jovem que a europeia e estar sujeita a uma infraestrutura social (educação, saúde e habitação), a incidência de casos sintomáticos e mortes nas faixas etárias abaixo da linha do grupo de risco e entre os pobres é preocupantemente mais elevada. Há ainda a possibilidade do presidente escolher para ministro mais um militar, o general Eduardo Pazuello, no momento o interino. Não seria a primeira vez que a pasta da Saúde ficaria nas mãos de um profissional de fora da área. Entretanto, o governo seguirá bombardeado por adotar uma linha que contraria a adotada por quase todos os países do mundo, a da preservação das pessoas em casa, priorizando a vida.