[[legacy_image_316918]] Com a posse de Javier Milei no próximo domingo, era previsível que o presidente Alberto Fernández deixasse para o sucessor a decisão de apoiar o acordo do Mercosul com a União Europeia (UE). O Itamaraty esperava que Fernández desse o aval ao tratado, amanhã, na reunião de líderes do bloco regional. Milei já disparou críticas ao Mercosul, mas a elite produtora de commodities da Argentina, aliada do ex-presidente Maurício Macri, que participa do futuro governo, deve ambicionar vender mais aos europeus, assim como os brasileiros, o que pode afastar alguma recusa do argentino ao livre-comércio entre Mercosul e UE. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo analistas, o acordo com a UE, ainda que difícil, poderá sair do papel mesmo sem o apoio do presidente francês Emmanuel Macron. Acuado pela extrema direita, o pano de fundo tem viés protecionista. Os agricultores franceses são historicamente avessos à concorrência externa e os extremistas souberam captar isso eleitoralmente. Tanto em relação ao Brasil como à Argentina, como mostra o jornal Ambito Financiero, de Buenos Aires, os europeus alegam que os produtores do Mercosul não seguem regras de proteção ao meio ambiente. Macron, de acordo com o jornal Valor, afirmou que não pode exigir dos fazendeiros e das indústrias que eliminem produtos para descarbonizar e ao mesmo tempo o governo remover as tarifas sobre importações que não seguiram essas regras. Posição bem diferente tem o chanceler alemão Olaf Scholz, que defende o livre-comércio para atrair commodities do Mercosul para abastecer a indústria alemã, altamente competitiva contra qualquer país. O caso do café brasileiro é bem conhecido sob esse aspecto. O Brasil é o maior produtor do grão, mas a Alemanha é quem fatura com valor agregado ao importá-lo, industrializá-lo e vendê-lo sob eficiente estratégia de marketing. A preocupação dos europeus com a concorrência do Mercosul sem tarifas varia de país para país, conforme os produtos feitos localmente e a capacidade de competição. No caso do agronegócio, o temor é enfrentar a produção que sai de gigantescas fazendas do Brasil e da Argentina. Por isso, após duas décadas de negociações, os dois lados definiram cotas para limitar a entrada de alguns itens, como carne. Não haverá uma porteira aberta à vontade. Por outro lado, os europeus querem acesso às compras governamentais do Brasil, que são em volumes excepcionais para países menores do que estados brasileiros. Do lado do Mercosul também há insegurança, por exemplo, da indústria, que teme importados europeus, além da atual devastadora competição dos fabricantes chineses. Se os dirigentes do Mercosul tivessem se adiantado e fechado acordos com outras regiões, o bloco não estaria dependendo dos europeus. Ao mesmo tempo teria força para pressioná-los sob a alegação de que perderiam mercado para outros concorrentes mundiais.