[[legacy_image_276343]] Era esperado que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central mantivesse os juros básicos em 13,75% na última quarta-feira. Entretanto, as explicações dadas pela autoridade monetária, após sua decisão, foram muito conservadoras. Ela não indicou sinais, ainda que mínimos, do que pretende fazer no próximo encontro, em agosto, seja de corte, como já é consenso no mercado, ou deixar a Selic no atual patamar. Os analistas não chegam a engrossar o discurso do presidente Lula, que ontem disse que o chefe do BC, Roberto Campos Neto, “joga contra a economia brasileira”. Entretanto, o setor financeiro estranhou o tom da diretoria de Campos Neto e a Bolsa caiu 1,17%. O efeito dos juros em níveis elevados, que estavam em apenas 2% ao ano em agosto de 2020, é o de encarecer o crédito, desestimulando o consumo e os investimentos. Há ainda outro resultado perverso, o de cidadãos e empresas que contraíram dívida quando as taxas estavam mais baixas e que agora impulsionaram o saldo devedor. Grandes varejistas e provavelmente os pequenos, que dependem de empréstimos para fazer estoque para vendas sazonais, enfrentam, além das taxas nas alturas, fornecedores e bancos exigindo condições mais rigorosas devido ao temor de calote. Os casos das redes Marisa, Tok&Stok e Americanas, com endividamentos impressionantes e até atrasos de aluguéis de lojas, e a inadimplência de 80% da linha Sim Digital, de microcrédito da Caixa, indicam a situação difícil em que empresas de diferentes portes e cidadãos enfrentam. A alegação do BC é de que precisa de dados mais consistentes de controle da inflação. Neste momento os índices IGP, que refletem os preços do atacado, estão deflacionários (em queda), enquanto o IPCA, que considera o consumo das famílias com renda até 40 salários mínimos, está em 3,94% ao ano, mas ao mês poderá ficar negativo em junho. Entretanto, o BC quer que os índices continuem assim, comportados até dezembro, o que não está garantido. Porém, o caso brasileiro é ímpar, pois há um remanejamento de preços automático, como salários e contratos de aluguéis, que sobem automaticamente via correção de índices, e tende a gerar custos sobre outros itens da economia. Isso enfraquece a estratégia do BC, usada na maioria dos países relevantes, de subir os juros para tirar dinheiro da economia, forçando indústrias, lojistas e serviços a controlarem seus preços. Contudo, o BC pode ser questionado se está atuando com a dosagem certa (o nível da taxa) e no momento oportuno (a ponto de não matar a economia). Mas também não tem sentido o presidente Lula fazer reiterados ataques (que não são simples críticas) ao BC. Deve-se observar o caso da Turquia, cujo chefe do Executivo, Erdogan, interferiu no BC para derrubar os juros e a economia do país entrou em uma espiral inflacionária, de 19% em 2021 para 72% no ano passado.