[[legacy_image_145009]] Não há como ficar inerte ou relaxado. As palavras da jovem Isabela Vecchini, de 20 anos, moradora de Praia Grande, chocam e remetem o telespectador a uma época que já deveria fazer parte do passado. Em entrevistas à TV Tribuna e ao g1 Santos, ela conta o episódio que viveu dentro de um supermercado na última semana. Acompanhada de amigos, foi ofendida por um dos clientes que, supostamente, tentava furar a fila do caixa. Ao ser indagado pela jovem, disparou: “Seu cabelo é assim porque você saiu do bueiro. Nem precisa tomar sol, porque já está bem preta. Tá parecendo um incenso de macumba”. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Se escrever essas palavras já parece ofender os olhos e a leitura, é possível imaginar a dimensão da dor sentida por quem as recebe, uma moça negra, de cabelos curtos, já acostumada a ser tratada dessa forma desde a infância, segundo relatou à Reportagem. Em 2021, ano em que se comemorou os 50 anos do Dia da Consciência Negra, o Ministério dos Direitos Humanos registrou 1.016 casos de injúria racial contra pretos e pardos. Os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais são os que mais tiveram denúncias, e contabilizaram, respectivamente, 205, 161 e 152 casos. Os números parecem não expressar o tamanho da aberração, mas devem aumentar muito em breve, já que está em vias de regulamentação um projeto aprovado pelo Senado que equipara os crimes de injúria racial e de racismo. Atualmente, injúria racial tem pena menor que racismo, o que evidencia uma herança equivocada, que entende a primeira como algo menos grave e, por isso, pode ser penalizada de forma mais atenuada. Em se mudando essa regra, é esperado que mais pessoas se estimulem a procurar a Justiça. Há um detalhe na fala da jovem Isabela que chama atenção. Ela diz que, desde criança, ouve ofensas dessa ordem, na escola, nos grupos de jovens e em ambientes públicos, mas que nunca denunciou. “Nunca quis me expor”, ressaltou. O episódio do supermercado só tem desfecho diferente porque estava acompanhada de amigos, que tudo viram e ouviram, e a convenceram a registrar Boletim de Ocorrência, primeiro passo para que a Justiça faça sua parte. Notícias assim tendem a compor a pauta diária dos veículos de comunicação e quase entram pelos ouvidos sem causar impacto. É como ouvir que a inflação subiu, que o dólar aumentou, que a vacinação avança. Casos como o de Isabela devem ocorrer com frequência, mas quantos saem do anonimato? E quando saem, que impacto provocam? Os amigos da jovem praiagrandense relataram que os demais clientes do mercado a tudo assistiram sem nada falar ou fazer, e que essa atitude tinha chocado tanto quanto as ofensas do rapaz. Só mesmo a punição exemplar fará com que as outras Isabelas que estão por aí se sintam à vontade em denunciar. Para os demais ‘clientes de supermercado’, o desafio é fugir da normose, afugentar a anestesia e estimular a que casos assim jamais fiquem impunes.