[[legacy_image_102708]] Alguns poucos países já começaram a adotar medidas que sinalizam o fim das restrições sanitárias, mas os efeitos da doença devem persistir, não apenas na economia, o que vai exigir planejamento e muita atenção do setor privado e dos governos. É o caso da queda de 26% das cirurgias eletivas (não emergenciais, que são agendadas) no primeiro semestre frente ao mesmo período em 2019, gerando uma demanda reprimida sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), conforme publicou o jornal O Estado de S. Paulo na segunda-feira. Outra forma de impacto, aliás, pode ser notada no Porto de Santos, que é a dificuldade do segmento de café de encontrar espaços nos navios, segundo a edição desta terça (14) de A Tribuna. O fechamento de alguns terminais portuários no mundo, no auge da covid-19, desequilibrou nos meses seguidos a oferta de contêineres, disputados por um aumento da demanda de alimentos, bens e serviços por embarcações. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Paralelamente há o descompasso na oferta de insumos para a indústria, como a de semicondutores, controlada por três fabricantes em Taiwan, Coreia do Sul e China (nesta ordem de relevância). Esses grupos não dão conta de atender ao mesmo tempo os setores automobilísticos e o de computadores/celulares, causando atrasos nas encomendas, produção parada, desemprego e aumento de preços. A inflação se tornou um problema mundial, mas nos emergentes ela é mais acentuada. O Brasil é um caso específico, porque seu histórico nessa área deixou uma série de mecanismos de reajustes automáticos de preços que dificultam o trabalho do Banco Central. O efeito educativo dos juros, para derrubar os aumentos, pode sair enfraquecido pela pressão da falta de matérias-primas. O próprio BC já alertou que a reabertura no Brasil deve ser acompanhada pelo encarecimento dos serviços, setor mais atingido pela pandemia e que tem muita demanda reprimida. Com tantos problemas a resolver, com prioridade no combate à covid-19 e na logística das vacinas, os governos na prática deixaram os mercados cuidarem por contra própria do problema da falta de suprimentos, sobrando para o consumidor final o peso da inflação e suas consequências nefastas. Não se trata de clamar por uma interferência estatal nas questões do setor privado, mas os governos precisam ser mais ativos na discussão de correções para o descompasso brutal que a pandemia causou entre oferta e demanda. Existe uma possibilidade real das economias sofrerem um revés pela lentidão de suas indústrias e empresas de serviços atingirem a normalidade das operações. Enquanto a Dinamarca é o primeiro país a encerrar totalmente as restrições sanitárias na Europa, Portugal já suspendeu as exigências pelo uso da máscara. Espera-se que o Brasil não demore a seguir esses exemplos. A doença estaria pelo menos controlada, mas seus impactos socioeconômicos deverão persistir por alguns anos.