Notam-se, em todo o mundo, restrições ao livre comércio. O presidente Donald Trump lidera esse movimento: seu lema de campanha, America First (América em primeiro lugar), exprimiu o anseio pela valorização e defesa da indústria e dos interesses nacionais, e as disputas com a China vêm se sucedendo, com ameaças de elevação de tarifas para produtos de lá importados. Em outros planos, como a circulação de pessoas em movimentos migratórios, houve também retrocessos, sinalizando o recuo do processo de globalização. Ainda assim, as trocas comerciais continuam sendo feitas. Na realidade, a história mostra, como destacou o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, que não há aumento de competitividade sem exposição a competidores, e também não há desenvolvimento econômico sem uma maior exposição ao comércio internacional nos dois sentidos: importações e exportações. Não se trata de atribuir ao comércio externo o papel único e decisivo para melhorar a situação econômica interna dos países. Mas é preciso reconhecer que ele pode contribuir, de maneira importante, para o avanço. Estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que os consumidores brasileiros teriam seu poder de compra aumentado em 8% com a diminuição das barreiras comerciais hoje existentes, e isso poderia resultar em ganhos de 8% no Produto Interno Bruto (PIB) em 15 anos. O Brasil ainda está distante dos padrões de abertura comercial vigentes. O País ocupa o 109º lugar (entre 190 países) do Doing Business 2019, do Banco Mundial, e é o 64º (entre 126 países) do Global Innovations Index 2018. Essas classificações mostram que há muito a fazer e avançar no setor, mas que precisa ser acompanhado de reformas e mudanças estruturais em áreas como marco regulatório, infraestrutura, sistema tributário, burocracia e formação e treinamento da mão de obra nacional. Sem essas condições básicas a abertura será inócua, uma vez que os produtos e serviços produzidos internamente não conseguirão competir no exterior. Abertura comercial traz impactos. O maior deles diz respeito ao alinhamento tecnológico, que pode gerar desemprego: estudo da consultoria McKinsey em 54 países desenvolvidos e em desenvolvimento aponta que 64% dos postos de trabalho industriais existentes têm potencial para serem automatizados. Daí a importância de preparar-se para essa realidade, com políticas educacionais e de requalificação dos trabalhadores, recolocando-os no mercado de trabalho. O futuro exige sistema comercial aberto, com regras que mantenham a estabilidade e a previsibilidade da economia internacional, garantindo um ambiente de negócios e de investimento, e o Brasil deve participar, de modo ativo, desse movimento.