[[legacy_image_207787]] A Rússia diz que o recuo de suas tropas é uma reorganização de forças, enquanto a Ucrânia afirma que retomou áreas invadidas por Vladimir Putin. Entretanto, a saída às pressas dos russos, com oficiais tentando vender suas casas na Crimeia e tanques deixados para trás, indica que os ucranianos estão em vantagem. O desenrolar do conflito, além da inflação nas economias ricas, é hoje a grande questão a ser resolvida para se atingir pelo menos uma moderação na geopolítica mundial. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Uma solução na Ucrânia teria impactos globais, inclusive no Brasil, com um alívio nos mercados de trigo e fertilizantes, a volta da Rússia ao comércio de petróleo e principalmente com o fim de uma grande preocupação dos europeus, que, por enquanto, não devem contar com o gás russo para aquecê-los no inverno. É provável que um eventual fim da guerra não deixe tudo como antes, até porque Rússia e China ensaiam uma aproximação para fazer frente ao poderio militar do Ocidente. Nos dois lados, não cabe papel de mocinho. Alguma animosidade cai bem aos americanos, que pretendem manter a pressão sobre a China para evitar uma invasão de Taiwan, por enquanto fornecedora de 80% do consumo mundial de semicondutores, os chips usados em automóveis e eletroeletrônicos. O Brasil precisa acompanhar essa crise com muita atenção devido ao comércio com os chineses, que compram quase um terço dos produtos brasileiros e são fonte alternativa de capitais para investimentos em infraestrutura. No lado ucraniano, há um respiro de alívio e um clima de festa, mas hoje ainda não é possível afirmar se a guerra está perto do fim ou se será levada em banho-maria pelos russos. Tudo depende de Putin, da continuidade de seu controle da política de Moscou e das máquinas governamental e militar do país. No mês passado, ele assinou um decreto para as forças armadas ampliarem seu efetivo em dezenas de milhares de homens e mulheres no próximo ano, o que indica uma expectativa de conflito demorado. Depois de apostar em uma vitória de três dias na Ucrânia, a estratégia russa passou a ser dominar o leste pró-separatista e o sul, que dá acesso ao Mar Negro. As áreas retomadas pela Ucrânia, somadas, têm o tamanho parecido ao do Distrito Federal do Brasil, enquanto o território ucraniano é um pouco maior que Minas Gerais. Para quem tem uma potência nuclear como invasora e, além disso, é vizinha, as recentes vitórias de Kiev são um feito e tanto. Mas a Ucrânia está exaurida e aumentou a cobrança por mais armas do Ocidente, com pesadas críticas à Alemanha, país quem mais sofrerá sem o gás russo. Putin, com imagem abalada agora, se a Ucrânia continuar avançando sobre o leste e sul, poderá radicalizar com ataques cada vez mais pesados. Para a Ucrânia, perder a guerra significa ser dominada e perder a autonomia do próprio destino. A guerra já tem sete meses e o russo vai sair dela apenas se não for com a imagem da derrota.