[[legacy_image_240998]] As críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos juros altos, bem acima da inflação, levantaram dúvidas na semana passada se o Banco Central (BC) passará a ser alvo de pressões para acelerar o corte da taxa Selic. O discurso do petista foi entendido no mercado como um aviso do governo de preocupação de que a atual política do BC aniquile qualquer expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e em 2024. A ideia é deixar o crédito mais barato, estimulando o consumo e os investimentos e, do lado do setor público, permitir mais gastos nos programa sociais, o que incha ainda mais o endividamento federal se as atuais taxas forem mantidas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Mas o BC está blindado a interferências políticas por ter adquirido autonomia, com o atual presidente Roberto Campos Neto, indicado pelo governo anterior, com o mandato garantido até a metade da gestão de Lula. Além disso, apesar do efeito colateral do baixo crescimento ou recessão, os juros altos são uma política de efeito garantido contra a inflação, a depender da flecha certeira de seus condutores, os diretores do BC, que precisam acertar na dosagem, na hora de começar a subir e depois a reduzir a Selic. No caso de Campos Neto, economistas afirmam que foi um erro manter a Selic por muito tempo tão baixa e agora por deixá-la elevada em relação à inflação, como Lula reclamou. Hoje, a Selic está em 13,75% ao ano, enquanto o IPCA recuou para 5,79% ao ano. Entretanto, não é possível saber se esse índice de preços permanecerá nesse nível, pois as últimas pesquisas apontaram pressões e logo os combustíveis devem ser reonerados (o corte de impostos, pelo menos os federais, será revertido). Contra a linha rigorosa do BC brasileiro, pesam os BCs das economias ricas que, mesmo subindo os juros, têm adotado uma elevação mais branda. Isso fez o ex-secretário do Tesouro Nacional Mansueto Almeida afirmar que esses gestores, por não quererem aquecer uma recessão próxima, não vão debelar as subidas de preços locais se mantiverem uma política moderada como têm aplicado. São países que há quatro décadas não viam uma escalada dos custos e da remarcação nos supermercados tão intensa e que, por isso, não têm uma cultura inflacionária embutida em suas economias. No Brasil, uma série de serviços e produtos, dos aluguéis aos contratos de concessão, são automaticamente reajustados por índices de inflação, uma indexação que restringe o impacto da atuação do BC. No fim das contas, o mercado, que não é apenas o financeiro, envolvendo as empresas e os consumidores, depende dos sinais do governo para confiar na solidez do real e na seriedade no plano do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de reduzir o rombo federal. O BC, que não é uma instituição perfeita, é o guardião da moeda e enfraquecê-lo contraria o bom senso. A inflação reduz o poder de consumo da população e, por isso, combatê-la é uma prioridade.