Dois dias depois do Ministério da Saúde divulgar um cronograma de vacinação contra covid-19 alienado da urgência que a população necessita, o governador João Doria cravou para janeiro o início da distribuição do imunizante da Sinovac Biotech no Estado. O anúncio está envolto em uma clara estratégia política por parte do tucano, que ainda provocou o Palácio do Planalto. Se o Governo Federal não incluir São Paulo no programa nacional de vacinação, o Estado bancará todo o custo. O contorno político e a briga entre cotados para as eleições em 2022 são o que menos importa para os brasileiros e também as empresas. A eficácia da imunização é fundamental para salvar vidas – a média de mortes agora tem ficado acima de 700 por dia – e consequentemente dar estabilidade para a economia andar sem traumas e entraves. Clique e Assine A Tribuna por R\$ 1,90 e ganhe acesso ao Portal, GloboPlay grátis e descontos em lojas, restaurantes e serviços! O combate ao novo coronavírus é a urgência mundial. É difícil encontrar um País no qual a prioridade não seja essa, incluindo onde arrumar dinheiro para aplicar a vacina, qual a melhor delas e como poderão ser distribuídas. Entretanto, o Governo Federal, por uma questão ideológica ou negacionismo inexplicável, recusa-se a olhar para a pandemia com a atenção merecida. Até mesmo o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que declarou há poucos dias ainda sofrer com sintomas da covid-19, disse com uma naturalidade surpreendente que analisou as condições das vacinas disponíveis e que todas têm algum tipo de falha. Pazuello parece não ter entendido da urgência da covid-19 e da grande quantidade de famílias esfaceladas por mortes de seus entes e também que há uma corrida mundial pelo imunizante, numa velocidade nunca antes percorrida. Há possibilidade de falhas, mas serão resultado de uma batalha inesperada contra um vírus ardiloso que persiste e se multiplica com base nos erros dos gestores mundiais. Basta observar a segunda onda na Europa, fruto do descuido no verão com aglomerações e falsa ideia de que o poder infeccioso estava neutralizado. O plano federal já divulgado é aplicar a vacina em quatro fases entre março e dezembro, nas quais serão imunizados apenas grupos prioritários, deixando o grosso da população para 2022. Aparentemente, os técnicos traçaram custos e elencaram onde vale a pena gastar dinheiro e quem, entre os que têm menor possibilidade de morrer, pode esperar mais tempo para ser imunizado. No caso paulista, o erro é anunciar data sem ainda ter eficácia comprovada, processos de produção, grupos prioritários e regiões a serem atendidos, o que o Governo do Estado promete divulgar na próxima semana. O problema de mergulhar os imunizantes na arena política é assustar o público-alvo, ainda cercado de fantasias sobre vacinas, aplicadas com sucesso há décadas e que agora são vistas com reticências por alguns. O importante é haver seriedade e critérios científicos sobre o que deverá ser aplicado na população.