[[legacy_image_206966]] A deflação pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de -0,68% em julho e de -0,36% no mês passado, deixou o mercado de ações eufórico, com a expectativa de uma queda da Selic no médio prazo estimular o consumo e valorizar empresas cujo crescimento depende diretamente do consumo, como as varejistas. O Governo fez festa, com forma de propagar que a economia está em um ritmo mais forte, com fins eleitorais. Além disso, muitos economistas reforçaram o coro da boa notícia, ainda que alertassem para que o problema dos preços altos, de fato, não sumiu. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Os dados são claros de que a inflação perdeu força. Mas ela não deixou de ser um fantasma e não se sabe se o alívio é sustentável. O gerente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Pedro Kislanov, responsável pelo índice, fez uma ressalva, daquelas que o ministro da Economia, Paulo Guedes, não gosta de ouvir. Kislanov lembrou que o IPCA é composto por 377 itens, portanto, uma média de preços, que individualmente podem ter os comportamentos mais diversos. Segundo Kislanov, dos 377 produtos e serviços pesquisados a cada 30 dias para o IPCA, 70% subiam de dezembro a abril últimos. Em maio e julho, esse percentual de “difusão de inflação” recuou para 63%. Entretanto, ele avançou para 65% em agosto. Esse índice de difusão dentro de cada IPCA mensal merece atenção até para compreender a desconfiança dos consumidores que vão aos supermercados e reclamam que os preços não pararam de subir ou que pelo menos não estão caindo no ritmo que o IPCA indica. A atual deflação é reflexo da interferência direta do Governo, que reduziu impostos sobre itens que pesam consideravelmente no IPCA, como combustíveis – as alíquotas do ICMS sobre a gasolina foram cortadas entre seis e 14 pontos percentuais conforme o estado. Além disso, em exatos dois meses, o barril do petróleo do tipo Brent, referência de preço no Brasil, caiu 14,45%, o que facilitou ao novo comando da Petrobras repassar mais rapidamente às refinarias a queda das cotações internacionais. Basta olhar para os anos 1980 e 1990 para entender que a inflação é uma doença crônica do País e que intercala altas acentuadas com quedas moderadas. Assim, o Brasil está longe de ter a estabilidade dos Estados Unidos e Japão, que durante quatro décadas praticamente não tiveram subida de preços e só agora sofrem com inflação de novo. Sem clima de festa, a diretoria do Banco Central desanimou as previsões de que a taxa Selic cairá logo, afirmando que a “batalha contra a inflação não está ganha”, um discurso fora do tom otimista que o Governo espera ouvir perto das eleições. Há outro fator que ronda as preocupações do BC, que é o dólar, que não recua como se esperava, pois há a tensão eleitoral, que geralmente aperta o câmbio, e a própria valorização da moeda americana devido à subida dos juros nos EUA.