[[legacy_image_90445]] A derrota do presidente Jair Bolsonaro com a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do voto impresso, na terça-feira, trouxe importantes implicações para os próximos meses. Pode-se dizer que o desfecho foi trágico para o Palácio do Planalto, ainda que o resultado do placar tenha sido menos ruim do que se previa. A primeira análise que se tem é que os 229 votos favoráveis ao tema indicam que o bolsonarismo tem uma base mínima o suficiente para evitar eventual processo de impeachment. Porém, ficou claro que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-Al) não só mostrou independência na articulação como se fortaleceu politicamente. Nos bastidores, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, ele trabalhou compulsivamente para derrubar a PEC, telefonando para líderes de partidos. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Por outro lado, o primeiro trabalho de um dos líderes do Centrão, Ciro Nogueira (PP-PI), agora como chefe da Casa Civil, foi reduzir os danos causados pela tática do confronto do Planalto e pela repercussão do inoportuno desfile militar. Se o Centrão saiu rachado, outros partidos, fora desse grupo, também sofreram fraturas, como o PDSB, que deu votos favoráveis e contrários. Lira, com outras prioridades na Câmara – a principal delas é acelerar o trâmite da reforma tributária – parece ter um papel parecido ao do antecessor Rodrigo Maia. Enquanto presidente da Câmara, Maia trabalhou pela reforma da Previdência (aliás, com resultados bem diferentes do esperado pelo Governo), enquanto o Planalto desenvolvia pautas de costumes caras ao bolsonarismo. Porém, o poder de Lira vem da coesão e força bruta do Centrão e tudo indica que, apesar de contrariar o Planalto e participar da derrota da PEC, a frente partidária precisa usufruir da estrutura federal para reeleger ampla bancada no próximo ano. Já o Governo, em situação de isolamento, tem que manter apoio suficiente para votar seus projetos e se blindar contra eventuais processos. Entretanto, a articulação de Nogueira é das mais difíceis, pois o caso do voto impresso mostrou que algumas pautas defendidas pelo presidente não são agregadoras e ainda contam com o temperamento explosivo de Bolsonaro e sua tática de tentar impor suas posições a ponto de desrespeitar os poderes e a própria democracia. Se por um lado o confronto mantém fiel o eleitorado bolsonarista raiz, com a meta de garantir uma vaga para o segundo turno, por outro dificulta a manutenção da base de apoio pelo chefe da Casa Civil. A negociação política ponderada e a redução da temperatura na Praça dos Três Poderes são fundamentais não apenas para preservar a maior conquista dos brasileiros desde os anos 1980, que é a volta da democracia, mas também projetos importantes. Além das reformas, há as propostas que ampliam benefícios sociais, que precisam de foco para serem debatidas, principalmente sob o aspecto da responsabilidade fiscal.