Durante o encontro virtual da terça-feira com governadores, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, sinalizou que o governo começou a rever suas percepções fantasiosas e planos alienados para enfrentar a covid-19. Esse movimento é animador, ainda que falte um longo caminho de correções. A reunião foi dedicada exclusivamente à vacinação. A primeira vitória é que o Palácio do Planalto parece ter admitido alguma urgência contra o novo coronavírus. Prova disso é que foi enterrada a ideia de começar a aplicar o imunizante apenas em março, enquanto o Reino Unido inaugurou sua campanha da vacina da Pfizer na última segunda-feira. Pazuello disse aos governadores que a imunização começará no final de fevereiro, aliás um prazo ainda tardio. Além disso, o ministro recuou de apostar apenas no projeto da AstraZeneca/Oxford ou ainda da Covax Facility, que estão entre os menos acessíveis. Enquanto o da AstraZeneca/Oxford foi atropelado por erros dos cientistas, o da Covax não tem previsão de entrega da produção. Por isso, Pazuello acena cada vez mais à Pfizer. Mas, a empresa americana, que tem parceria com o laboratório alemão BioNTech, avisou sofrer falta de insumos e que poderá enfrentar atrasos com as encomendas. Clique e Assine A Tribuna por R\$ 1,90 e ganhe acesso ao Portal, GloboPlay grátis e descontos em lojas, restaurantes e serviços! Entretanto, continua muito acentuada a tensão provocada pelo viés político da vacina. O Palácio continua às turras com o governador João Doria, principalmente depois dele agendar o começo da vacinação no Estado em 25 de janeiro mesmo sem aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O discurso do Governo Federal é de que nenhuma vacina será recusada e que a Anvisa tomará suas decisões de forma isenta, apesar da nomeação para uma de suas cadeiras de militar sem conhecimento ou experiência em saúde ou mesmo medicamentos. O problema agora do Palácio, de Pazuello e da Anvisa é suportar a pressão dos governadores, claramente aflitos com o protagonismo que Doria já tem na questão da vacinação. A exposição do paulista é óbvia pela força econômica do Estado e a tradição científica do Instituto Butantan. Mas a visão dos chefes dos executivos estaduais, em especial do goiano Ronaldo Caiado, é de que a medida que Doria desfila com uma vacina redentora, o eleitorado local espera o mesmo de seu governante. No final das contas, o jogo de cena com vistas para 2022 parece mover muito mais os políticos do que as atuais necessidades sanitárias. O relacionamento turbulento entre Doria e o presidente Jair Bolsonaro no âmbito da vacina se espalha por outros estados. O maranhense Flávio Dino (PCdoB) ruma ao Supremo Tribunal Federal para liberar a vacina na Corte caso a Anvisa retarde os processos para conceder aprovações. A expectativa é de que o Brasil siga os outros países, liberando imunizantes de forma emergencial. Pazuello, entretanto, fala muito de processos e custos, enquanto mais de 700 brasileiros morrem de covid-19 por dia.