[[legacy_image_340211]] Se há algumas décadas o Brasil acompanhava atentamente os passos dos Estados Unidos, agora faz o mesmo com a China. Com um terço do comércio exterior brasileiro atrelado aos chineses, as decisões do presidente Xi Jinping, agora considerado o líder mais forte do país desde Mao Tsé-Tung, precisam ser atentamente observadas. Na última terça-feira (5), o premiê Li Qiang anunciou na abertura do Congresso Nacional do Povo que a meta do governo é atingir crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 5% neste ano. O percentual é elevado para padrões brasileiros, mas não para a economia asiática, que já atingiu pico de 12%. Mesmo assim, economistas acham ambiciosa essa pretensão devido a um contexto mais difícil. A começar pelo decréscimo populacional, que deve reduzir a oferta de mão de obra, portanto, encarecê-la, afetar o consumo e aumentar os gastos com saúde e aposentadoria. De imediato, o país tem uma persistente deflação, com riscos para o mundo todo. Os preços em queda, em períodos curtos, fariam bem para qualquer população. Porém, analistas dizem que o chinês está menos disposto a consumir, o que sugere que ele desconfia do futuro e prefere poupar. Essa deflação também tem um fundo de excesso de produção. Por exemplo, o país produz mais da metade do aço mundial. Para evitar o encalhe, ele é exportado a preços competitivos, a ponto de tirar o sono das siderúrgicas brasileiras, que reclamam medidas antidumping do Governo Lula. Entretanto, essa sobra do insumo na China está relacionada a outro problema muito maior, a crise imobiliária. A Evergrande, uma incorporadora gigantesca, teve falência decretada e outras estão em apuros. muitos imóveis permanecem vagos e os chineses viram seu patrimônio, um investimento para a aposentadoria, perder valor. Como a habitação equivale a um quarto do PIB, é óbvio que essa situação prejudica o crescimento do país. A China enfrenta ainda outro desafio, o do endividamento dos governos regionais, um problema citado pelo premiê na abertura do congresso. Aliás, o governo decidiu se endividar para estimular a economia, com o anúncio de Li Qiang de que haverá uma emissão de títulos de US\$ 138 bilhões (R\$ 682 bilhões) para o Estado injetar na economia na forma de empreendimentos, uma estratégia adotada em 2020, no auge da pandemia. Por enquanto, o país está longe de uma crise estrutural como a da Argentina ou a recessão da Alemanha ou Japão. Porém, o chamado pouso chinês (um crescimento menor do que o costumeiro), considerando o tamanho de sua economia, produz impactos em seus parceiros. No caso do Brasil, a produção de alimentos sofreria menos do que a demanda por minério de ferro da Vale, outro produto importante da exportação brasileira. Mas o interessante é que o governo chinês fala muito em cumprir meta fiscal, algo que parte da esquerda daqui acha uma grande bobagem.