[[legacy_image_341637]] A queda de braço entre o governo e o mercado pelos rumos da Petrobras tem uma explicação simples. A União é a controladora e é ela quem deve decidir qual o caminho da empresa. Entretanto, trata-se de uma companhia mista, com 36,5% das ações em poder estatal, com sócios privados, com 867 mil investidores, entre eles grandes bancos e fundos, como os americanos BlackRock e GQG, donos de 7,6%, mas também pequenos investidores da classe média. Aliás, estes contam com os dividendos para melhorar a renda mensal, o que contribui para o consumo e o crescimento do País. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, neste seu terceiro mandato, reencontrou a estatal com sua governança fortalecida contra erros de gestão, interferência política e corrupção. Mas outra mudança muito importante se dá na empresa neste momento, que é o impacto do pré-sal, injetando muitos recursos no caixa da estatal em um ritmo jamais visto no País. Se há 40 anos o Brasil, que pouco exportava e corria o risco de não ter dólares no mês seguinte para importar petróleo, agora a situação se inverteu totalmente. O produto está perto de tomar a liderança da soja nas vendas externas. Por isso, a incrível geração de dividendos da petrolífera não pode ser vista como vítima da cobrança do mercado por lucros incessantes. Deve-se lembrar ainda que a decisão do conselho da estatal, de suspender os dividendos extraordinários (a pressão foi tamanha e essa medida pode ser revista), não interfere nos pagamentos ordinários convencionais. Os extras funcionam como uma antecipação de ganhos futuros, aliviando uma pressão sobre o caixa à frente se, por exemplo, o preço do petróleo cair e a receita for insuficiente para pagar dívidas. A questão é que o acionista controlador deseja usar esses recursos para investir, o que tem alguma lógica – esses empreendimentos trariam mais faturamento e riqueza para a empresa e seus acionistas. Porém, começa aí um questionamento saudável. Os planos do governo são os mais certos para a estatal? São escolhas que poderão dar grande prejuízo? A história recente mostra que as vezes que a estatal saiu de sua vocação – produzir petróleo – teve perdas. A Petrobras já investiu em fertilizantes, biocombustíveis e no refino. Neste último caso basta citar Abreu e Lima, em Pernambuco, concebida em 2005, que custará mais R\$ 8 bilhões para ser concluída. A discussão envolve o debate sobre ampliar ou não a presença do Estado na economia. Mas também é preciso admitir que o mercado é muito imediatista, exigindo resultados no curto prazo, sendo que as empresas precisam de mais tempo para amadurecer seus investimentos. O que não pode é uma estatal desse porte ser pressionada por um debate público interminável, sob o risco de tanto barulho ser visto como falta de rumo. Isso sim afasta os investidores e ajuda a corroer o valor de mercado da petrolífera.