[[legacy_image_298998]] A estação das flores, que começa hoje, promete vir mais quente do que os últimos anos, efeito da combinação do recorde de calor nos oceanos registrado em agosto com a provável continuidade do El Niño até março de 2024. Especialistas dos institutos meteorológicos indicam que o verão, a partir de dezembro, terá máximas inéditas no Brasil. Outro prognóstico aponta que as chuvas que atingem o Sul devem ganhar força, especialmente em dezembro, levando tempo mais quente e seco ao Norte e ao Nordeste. A incerteza recai sobre o Sudeste, sem sinais muito claros de mais ou menos chuvas. Agosto foi o mês mais quente da história da América do Sul desde 1910. Sempre que há previsão do tempo em início de nova estação atribui-se aos fenômenos da natureza, como El Niño e La Niña, que esquentam ou esfriam a temperatura dos oceanos e desencadeiam efeitos imediatos nas ondas de calor ou frio sobre os continentes. De fato, os reflexos estão diretamente relacionados a esses fenômenos, que ocorrem desde que o mundo é mundo. Porém, é preciso relacioná-los de maneira adequada e científica, tomando por base registros históricos que a academia vem produzindo sobre o aquecimento do planeta. Um dos estudos mais recentes, publicado em revista científica, foi feito pelo campus Baixada Santista da Unifesp, e mostrou que toda a costa brasileira já sofre impacto da mudança do clima em relação à temperatura do ar, com as regiões Sudeste e Sul mais afetadas do que as regiões Norte e Nordeste. O estudo identificou que esses picos estão ficando mais frequentes e cada vez mais elevados. Para chegar a essa conclusão, foi avaliada uma série histórica com dados de temperatura do ar observados a cada hora do dia ao longo dos últimos 40 anos em regiões costeiras do País, incluindo São Paulo. No período, a ocorrência de eventos extremos de temperatura quase dobrou em São Paulo (84%) e quase triplicou no Espírito Santo (188%). Em outras palavras, é correto admitir que fenômenos como El Niño e La Niña interferem na temperatura dos oceanos e dos continentes por consequência, mas eles se potencializam na medida em que as ações antrópicas afetam o ecossistema oceânico, dilapidam a proteção verde nas zonas costeiras e desertificam o meio urbano com excesso de ocupação sem o respaldo de áreas arborizadas e livres que forneçam sombra. Combater os picos de temperatura demanda uso maior de sistemas de refrigeração, desencadeando um efeito cascata sobre as fontes de energia e a emissão de gases de efeito estufa. A consciência dessa cadeia de ações e reações ainda não está plenamente clara para a população, que apenas acompanha as notícias sobre a previsão do tempo para a estação que se inicia. Absorver esse conhecimento e compreender a razão de ser das previsões promovem mudanças de postura e, mais que isso, cobrança sobre governos em todas as esferas.