[[legacy_image_278105]] Com ampla cobertura dos veículos estrangeiros e repercussão internacional, chegou ao fim, ontem, o julgamento da ação em que o ex-presidente Jair Bolsonaro era acusado de abuso de poder político e uso indevido de meios de comunicação oficiais. O placar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) terminou em 5x2 pela inelegibilidade de Bolsonaro até 2030. Os dois votos a favor do ex-presidente foram dos ministros Kassio Nunes Marques e Raul Araújo Filho, de quem Bolsonaro esperava um pedido de vistas ao processo para postergar o julgamento. A favor da condenação votaram Benedito Gonçalves (relator), Floriano de Azevedo Marques, André Ramos Tavares, Carmen Lúcia e Alexandre de Moraes, presidente do tribunal e último voto a ser proferido. O episódio desencadeia um sem-número de análises, que vão da pertinência da medida face às acusações até o legado político que o ex-presidente deixa, quem herdará sua posição no xadrez das próximas eleições e que eventual papel o agora inelegível Bolsonaro terá daqui para frente. “No que foi que eu errei na reunião com os embaixadores, meu Deus do céu?”, disse Bolsonaro logo após a sentença ser proferida. Despida de cor ideológica ou partidária, a análise dos fatos não deixa dúvidas de que Jair Bolsonaro exagerou na sanha de colocar em suspeição o processo eleitoral, a lisura e confiabilidade das urnas. Não bastasse fazer desse discurso seu dia a dia em entrevistas e postagens em redes sociais, convocou reunião com diplomatas estrangeiros para levantar essas suspeitas oficialmente, utilizando-se de canais, estrutura e meios de comunicação do próprio governo para fazê-lo. Arriscou-se demais, é fato, e o resultado não seria outro se não transformar esse episódio em farto combustível para uma ação de inelegibilidade. Mas engana-se quem acredita que Jair Bolsonaro fora das disputas até 2030 significará jogá-lo na sombra do esquecimento. O movimento que ele criou e protagonizou é forte o suficiente para ganhar corpo e fazer sucessores. A primeira a se prontificar a assumir o bolsonarismo foi Michelle Bolsonaro, sua mulher: “Estou às suas ordens, meu capitão”, disse, logo após o anúncio do TSE. Além dela, estão no organograma desse legado os ex-ministros Ricardo Salles e Tereza Cristina, o general Braga Netto, seu candidato a vice em 2022, os governadores Tarcísio de Freitas (São Paulo), Ratinho Jr. (Paraná) e Romeu Zema (Minas Gerais), o senador Flávio Bolsonaro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro, seus filhos. Um detalhe no desenrolar desse enredo faz toda a diferença: Jair Bolsonaro perdeu a eleição para Lula por menos de dois por cento dos votos, o que faz crer que sua legião de seguidores é forte o suficiente para fazer um sucessor em 2026. Dependerá exclusivamente da performance do atual governo, em especial na economia, garantir que seu principal opositor não retome espaço, nem votos, nem poder.