Terminou nesta quarta-feira (29), sem acordo, negociação entre representantes do governo da Venezuela e da oposição na Noruega. Esta foi a quarta tentativa em cinco anos de se buscar um acordo, mas havia agora um novo quadro: de um lado, o presidente Nicolás Maduro está muito enfraquecido, com grande pressão da comunidade internacional para que mudanças aconteçam no país; e, de outro, a oposição, liderada por Juan Guaidó, não conseguiu, pela pressão popular, derrubar o atual regime, tendo fracassado em várias tentativas. A crise é profunda, com inflação na estratosfera, desabastecimento, fome, desemprego, êxodo de milhões de venezuelanos para países vizinhos. Mas o governo se mantém no poder, baseado principalmente no apoio até aqui incondicional das Forças Armadas. Daí a expectativa que algum acordo pudesse ser obtido, já que o impasse atual não interessa a nenhuma das partes. Ainda é prematuro admitir que as tentativas de diálogo ocorridas na Noruega fracassaram. Foi a primeira vez que os dois lados se reuniram diretamente, com encontros de representantes do governo e da oposição. Guaidó defendeu o envio de delegados a Oslo, e alertou que opositores contrários a negociar podiam acabar se tornando “cúmplices de Maduro”, em claro movimento de aposta no processo que começava a avançar. A Noruega é um ator imparcial, com experiência e sólida reputação internacional na mediação de conflitos. Ela atuou facilitando processos de paz como os acordos celebrados entre israelenses e palestinos e o do governo colombiano com o grupo guerrilheiro Farc, em 2016. O modelo norueguês é interessante: seus representantes atuam de modo pendular, reunindo-se separadamente com cada parte, governo e oposição, para elaborar uma agenda comum. Isso facilita a etapa posterior, que é contato direto entre ambos. A delegação do governo em Oslo teve a presença do ministro das Relações Exteriores, Jorge Arreaza, e o ministro da Comunicação, Jorge Rodríguez, enquanto a oposição foi representada pela vice-presidente da Assembleia Nacional, Stalin González, o ex-ministro Fernando Martínez e Vicente Díaz, ex-membro do Conselho Nacional Eleitoral. São figuras importantes, que ofereciam maior credibilidade ao processo. É difícil a essa altura imaginar se será possível prosseguir com as negociações, e quais seriam os termos de um acordo possível, com a oposição insistindo que só considera válidas as negociações que levem à saída de Maduro e à realização de eleições livres, enquanto o governo rechaça essa solução. Mas a tentativa de se buscar acordo é positiva: ela é alternativa ao conflito e à guerra civil frequentemente anunciada como desfecho inevitável de uma crise que se arrasta há anos, deixando milhões de venezuelanos em terrível situação que já se aproxima do caos.