O Setembro Amarelo chega ao fim deixando um alerta que não pode desaparecer do debate público junto com a mudança do calendário. Dados do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), da Polícia Civil de São Paulo, mostram crescimento de 38% nos casos de suicídio e tentativas de suicídio de crianças e adolescentes relacionados à internet, às redes sociais e a plataformas digitais no primeiro semestre de 2026, em comparação com igual período do ano passado. Foram 134 ocorrências entre janeiro e junho deste ano: 84 tentativas e 50 mortes. No mesmo período de 2025, haviam sido registradas 97 tentativas e 33 mortes. Os números não permitem estabelecer uma série histórica, já que não há dados anteriores, mas são suficientes para acender um sinal de emergência. Mais preocupante ainda é o que as investigações encontram por trás de parte desses episódios: automutilação, aliciamento, coerção, chantagem e grupos fechados nos quais jovens vulneráveis são estimulados ou pressionados a praticar atos contra si próprios. O tema não é novo. O sofrimento psíquico de crianças e adolescentes e a influência que o ambiente digital pode exercer sobre eles já chegaram até as novelas da televisão aberta, ajudando a levar a discussão para dentro das casas. Ainda assim, essa dimensão específica da saúde mental parece passar ao largo de boa parte das conversas cotidianas sobre o assunto. Setembro tornou-se o mês de maior mobilização nacional em torno da prevenção do suicídio, e cumpre papel fundamental ao combater o silêncio e estimular a busca por ajuda, mas os novos dados mostram que é preciso acrescentar a essa agenda um olhar muito mais atento para a infância, a adolescência e o universo digital. Não se trata de demonizar a internet nem de estabelecer uma relação simplista de causa e efeito entre redes sociais e suicídio, já que o quadro é complexo e multifatorial. O problema está em ambientes capazes de potencializar vulnerabilidades já existentes e, em situações extremas, transformar sofrimento em espetáculo, pertencimento em instrumento de manipulação e automutilação em desafio ou prova de lealdade. A resposta, portanto, precisa ocorrer em várias frentes. Plataformas e redes sociais devem ser submetidas a vigilância apertada e responsabilizadas quando falharem na identificação e remoção de conteúdos, grupos e práticas que estimulem automutilação ou suicídio. A própria Polícia Civil paulista já apontou falhas de moderação que expõem crianças e adolescentes a riscos graves. Na mesma dimensão, pais e escolas precisam estar atentos. Mudanças de comportamento, isolamento, marcas de automutilação, conversas recorrentes sobre morte e alterações bruscas na relação com celular e redes não podem ser banalizados. Isso exige presença, diálogo e acompanhamento, e não apenas fiscalização. O tema não pode ter seu debate exposto apenas em setembro, mas de forma permanente.