[[legacy_image_318758]] Responsáveis por três quartos das emissões de gases, era previsível que os combustíveis fósseis estivessem na mira da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP28), em Dubai, que deveria ter terminado ontem. Apesar dos quatro textos com versões diferentes contra o consumo de petróleo, da mais branda até a mais dura, terem sido rascunhados na semana passada, um dos documentos com menos restrições é o que foi para a mesa das propostas mais viáveis. Ele propõe reduzir o alcance dessas fontes poluentes até 2050, sem termos essenciais como “eliminação” ou “redução gradual”, em uma total falta de compromisso com resultados efetivos. Essa versão também não tem instrumentos do limite do 1,5°C, que é o aumento de temperatura considerado aceitável, em relação à era pré-industrial dos países ricos, para impedir uma catástrofe ambiental. É evidente que o uso dos combustíveis fósseis não vai terminar de uma hora para outra, pois são a base da produção econômica, mas é preciso definir um caminho bem definido de transição. Sem medidas com prazos e cumprimento obrigatório, a destruição ambiental não vai recuar devido à imensa competitividade da cadeia poluente. Por exemplo, a exploração de apenas um campo de petróleo do pré-sal pode movimentar investimento de US\$ 200 milhões, mas, ao entrar em sua capacidade diária de produção, ele teria faturado US\$ 2,4 bilhões por ano. Entretanto, haverá o rastro indesejado da poluição dos poços até o consumo nos postos, sem considerar o uso do insumo na produção em geral, como a petroquímica de derivados e plásticos, do vestuário ao pó preto fino para borrachas e tintas. É tradição das edições anuais da COP haver impasse no fim devido ao conflito de interesses, de países ricos com pobres, de nações continentais com insulares (que podem desaparecer com o aumento do nível dos mares) e das economias com reservas e indústrias de petróleo. Na COP28, tal disputa é emblemática pela conferência ser realizada em uma potência petrolífera, os Emirados Árabes Unidos, vista como incoerente por ambientalistas. Apesar da pressão justa por medidas restritivas aos combustíveis fósseis, uma mudança radical para fontes renováveis exige muitos investimentos. Não basta apenas desativar ou parar de prospectar poços de petróleo. É preciso trocar toda a frota de veículos e a infraestrutura de energia de toda a indústria mundial, assim como adaptar as moradias a sistemas limpos. As economias pobres terão que receber tais recursos – caso contrário, países, que daqui algumas décadas serão alguns dos mais populosos do mundo, como Nigéria, Egito e Etiópia, ainda estarão presos a processos poluentes. A COP28 poderá tomar alguma decisão hoje, talvez algum meio termo entre as propostas mais brandas e extremas, com prazos que poderão ser longos para frear as mudanças climáticas, ficando para as próximas edições da conferência soluções mais efetivas.