[[legacy_image_306455]] Inesperada, a liderança do peronista Sergio Massa no primeiro turno da eleição argentina, seis pontos à frente do libertário extremista Javier Milei, foi chamada à exaustão no noticiário mundial de surpreendente. Na verdade, esse feito foi maior ainda porque Massa não entrega bons resultados ao país – a economia está aos frangalhos, a inflação atingiu 138% ao ano e as contas do governo se mostram aniquiladas. E para piorar, ele é o atual ministro da Economia de Alberto Fernández, que de tão impopular nem concorreu à reeleição. Enquanto não se tem uma pesquisa da intenção de voto para o segundo turno, em 19 de novembro, Milei segue com chances reais de vitória. Segundo jornais argentinos, as conversas dele com a terceira colocada Patricia Bullrich, uma direitista não extremista, e o ex-presidente Mauricio Macri poderão selar algum acordo. Entretanto, Milei deverá ceder de algumas de suas ideias radicais para atrair o voto do centro antiperonista. A base fiel do então favorito candidato vai aprovar? O tempo dirá. O salto de Massa parece estar ligado ao poderio político dos peronistas e aos benefícios sociais garantidos pelo governo e que não casam com o ideário liberal de Milei, assim como a campanha de uma espécie de medo contra o ultrarradical deve ter funcionado bem. Mas o recado do eleitorado argentino é bem claro aos dois candidatos que se enfrentarão no segundo turno. Se um deles tivesse de acordo com as necessidades da população, já teria sido sacramentado como presidente eleito no último domingo. Entretanto, a cobrança é por mais detalhes do que pretendem fazer. Se Milei quer dolarizar o país, algo que exigiria US\$ 40 bilhões, segundo economistas, e acabar com o Banco Central da Argentina (BCRA), como isso vai ser feito especificamente e, quanto a eventuais efeitos colaterais nocivos, o que deverá ser realizado? E no caso de Massa, se o que foi implantado até agora deu errado, o que pretende realizar daqui para frente? Na campanha, Massa disse que vai priorizar as exportações para aumentar as reservas do país. Como os benefícios sociais estão no centro do déficit do governo, como ele irá atuar sobre esse ponto? Os candidatos, e isso vale também para o Brasil, estão acostumados a divagar suas ideas sem esmiuçá-las. O superficial, a fanfarronice e a hipocrisia não interessam ao eleitor preocupado com seu país. Assim como a guerra Israel-Hamas, a eleição argentina foi acompanhada de perto pelos políticos brasileiros. Enquanto bolsonaristas viajaram à Argentina para apoiar Milei, a cúpula petista deu suporte de campanha a Massa, com o envio de especialistas de marketing eleitoral. Nas redes sociais, a discussão foi intensa, prova de que a polarização continua aquecida. Para o Brasil, o que interessa é um vencedor que saiba aproximar comercialmente os países, mesmo que existam divergências nos mais variados aspectos. O isolamento é a pior estratégia de governo.