Imagem ilustrativa (Reprodução/TV Globo) O presidente americano Donald Trump se arriscou politicamente ao contrariar seu eleitorado radical, avesso a ações externas, e interferiu com sucesso, por enquanto, no conflito entre Irã e Israel. Após autorizar bombardeios, Trump conseguiu um cessar-fogo, que saiu porque interessava aos oponentes. O Irã, que teve sua inferioridade militar escancarada, precisa recompor suas forças e seu programa de urânio, e Israel ainda mira Gaza e parte de seu arsenal de maior potencial bélico foi usada. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! O Irã ainda é uma incógnita. O país ameaçou fechar o estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo mundial, mas não o fez – talvez por incapacidade ou para não irritar de vez as autocracias petrolíferas da região. Agora, ao expor suas fragilidades militares, o regime dos aiatolás poderá enfrentar uma oposição interna disposta a desafiá-lo, ainda difícil devido ao controle de fato do governo sobre as polícias, forças armadas e os serviços públicos. O problema do país é que Israel esfacelou praticamente a aliança que Teerã construiu no Oriente Médio. O Hamas, em Gaza, e o Hezbollah, no Líbano, não foram eliminados, mas estão muito enfraquecidos, e a ditadura síria caiu, dando lugar a um governo que ainda não se sabe se vai durar ou se seguirá o caminho preferido por radicais. Os rebeldes houthis do Iêmen apoiam Teerã, que perdeu o vigor para militarizá-los, e podem virar alvo da Arábia Saudita, com a ajuda dos EUA. Ontem, o governo iraniano minimizou a destruição de seu programa nuclear e Israel disse que eliminou as ameaças – ambos reivindicaram vitória no conflito. Isso significa que consideram encerrada a disputa, até um próximo embate. Reportagens indicam que Teerã conseguiu esconder o urânio já enriquecido, e há dúvidas se EUA e Israel sabem onde todo esse material foi parar. Para o país islâmico, manter tal mistério é conveniente, como instrumento para negociar um acordo mais favorável. O premiê israelense Benjamin Netanyahu é essencial para o desfecho geopolítico no Oriente Médio. Seu governo se sustenta com apoio extremista, que busca consolidar a ocupação da Cisjordânia e o controle de Gaza, cujo fim da tragédia humanitária poderia reduzir o isolamento político de Israel, por isso, muito dependente dos EUA. Mas é óbvio que Netanyahu sabe influenciar Trump. Nos próximos dias 6 e 7, diplomatas do Irã estarão no Rio de Janeiro para a Cúpula dos Brics, que terá a presença da China e Rússia. Teerã deve dar sua versão sobre o conflito e o Brasil já emitiu nota defendendo a soberania do Irã. Mas fica o risco da crise do Oriente Médio obscurecer temas que interessam ao Brasil, como combate à pobreza e reivindicação de recursos dos países ricos para a transição energética das economias pobres. Condenar Israel e atacar a interferência americana no Oriente Médio estão nas redes sociais do eleitorado lulista à esquerda, porém, espera-se que a neutralidade do Itamaraty permaneça como posição de fato do Governo Lula.