[[legacy_image_302166]] Três dias depois de o Governo Federal anunciar um dos maiores e mais extensos programas de combate ao crime organizado, com recursos que chegam próximo a R\$ 1 bilhão, quatro médicos paulistas são vítimas de bandidos em pleno calçadão da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Quatro homens armados desceram de um veículo, à 0h59 de ontem, com rostos descobertos, e dispararam 33 vezes contra quatro médicos ortopedistas que participavam de um congresso internacional da especialidade. Três morreram e um ficou gravemente ferido. Ninguém havia sido preso até a noite de ontem. A principal linha de investigação é que os criminosos tenham confundido um dos médicos com o filho de um miliciano, bastante parecido, e que receberam a indicação de que estaria naquele ponto, motivo pelo qual se deslocaram para o local e atiraram no suposto miliciano e em seus companheiros de quiosque. O crime bárbaro repercutiu durante todo o dia na imprensa nacional e em vários canais internacionais. Conhecido por abrigar dezenas de eventos médicos, o hotel em que os médicos estavam hospedados anfitrionava um outro congresso, de fonoaudiólogos, com 4.500 pessoas inscritas. A dimensão que o crime ganhou e o local onde ocorreu colocam na berlinda a sustentabilidade de um dos negócios mais tradicionais e lucrativos do Rio de Janeiro, o turismo de feiras e eventos, característica de cidades famosas por suas belezas naturais, que agrega educação e lazer para um público qualificado, que aproveita o tempo livre para gastar em restaurantes e comércio locais. A criminalidade chega ao patamar máximo da ousadia e da falta de comando. Esta semana, em entrevista a uma rádio paulistana, o promotor de Justiça Lincoln Garkiya, do Ministério Público Estadual de São Paulo, disse que o crime organizado no Brasil já ganhou status de grande empresa, fatura 1 bilhão de dólares ao ano e é a maior organização criminosa do mundo, que cresce a despeito de planos e programas oficiais, corrompendo, inclusive, gestores públicos, legisladores e Judiciário. Jurado de morte, o promotor acredita que seja possível reverter essa escalada, a exemplo do que ocorreu na Itália e nos Estados Unidos, mas será preciso um encadeamento de ações contínuas e planejadas com as três esferas de poder. Esse é o desafio, ainda mais às vésperas de um ano eleitoral, em que reveses na segurança pública são facilmente transformados em armas políticas durante a campanha. O Governo Lula e em especial os governadores terão que fazer muito mais que anúncios e promessas para combater o crime organizado. Bem armados, treinados e com tecnologia, os criminosos e seus comandantes não vão poupar esforços para revidar qualquer tentativa de deter essa ascensão. É hora de pensar em uma ação maior, mas que combata com rigor, também, a ação conivente que já contamina membros do poder oficial, políticos e agentes públicos.