Depois de um mês do presidente americano Donald Trump no poder, a constatação é de que sua agressiva política de tarifas tem como foco a negociação, ainda que as taxas comecem a ser efetivadas (getty images) Depois de um mês do presidente americano Donald Trump no poder, a constatação é de que sua agressiva política de tarifas tem como foco a negociação, ainda que as taxas comecem a ser efetivadas. Entretanto, o republicano ensaia um curioso jogo de pressão sobre o Brics, o bloco dos emergentes inicialmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O mandatário dos Estados Unidos voltou a ameaçar de taxar essas economias em até 150% caso insistam em tentar ‘destruir’ o dólar. O mais próximo disso aventado no âmbito do Brics foi a criação de uma moeda comum para estimular a troca comercial entre esses países. Isso nunca foi confirmado enquanto objetivo institucional, mas o Brasil, que no momento preside o Brics, admite ampliar o uso das divisas locais, como real, rublo (Rússia) ou yuan (China), nas operações de exportação e importação dentro do apenas do Brics. O dólar segue imbatível como moeda de valor, uma divisa procurada quando há inflação ou guerras por ser resistente. Isso hoje não tem a ver com lastro em ouro, padrão abandonado nos anos 1970, porque já não funcionava há décadas. Segundo especialistas, o fim dessa relação tornou o dólar mais volátil (passou a oscilar muito). Seu brilho, segundo estudos, tem a ver com o poderio americano, da economia à defesa, com sua difusão pelo mundo via presença militar, das Américas à Ásia, resgate de nações abaladas pelas guerras, como Japão, Coreia e Europa, e também pelas multinacionais e empréstimos bancários. Nos últimos anos, tem se falado mais em fim da supremacia do dólar. E até que essa reserva de valor supostamente enfraquecida fez retomar o interesse pelo ouro e bitcoin, cujas emissões são cortadas pela metade a cada quatro anos, tornando-se anti-inflacionário. Porém, a divisa americana mostrou no ano passado sua força, atraindo capitais aos EUA, onde os juros passaram a render mais. Esse magnetismo aparentemente tem mais relação com a confiança nas instituições locais, como o Federal Reserve (Banco Central), e estabilidade da economia dos EUA. Não se sabe se Trump realmente acredita em complô para destruir o dólar. Na verdade, os países continuam fazendo esforço enorme para aumentar suas reservas nessa moeda – condição para a confiança de investidores e bancos. Como no Brics há nações rivais dos EUA militarmente (Rússia) e economica e cientificamente (China), brigar com o Brics surge como algo viável politicamente para Trump. Além disso, é próprio da atual direita extremista contestar instituições multilaterais, como Nações Unidas, Organização Mundial de Saúde ou do Comércio, Mercosul e o Brics. O Brics ainda é novidade e recentemente trouxe para seu circuito novos membros, como Irã, Arábia Saudita e Etiópia. Talvez a importância dada a Trump ao bloco tenha o efeito contrário, de reforçá-lo politicamente. Porém, esse ganho institucional vai depender da seriedade de seus integrantes na hora de tomar grandes decisões.