Custo de vida em alta, guerra no Oriente Médio sem solução à vista, política anti-imigratória abusiva e impacto ambiental de data centers nas comunidades garantiram aos republicanos a pior derrota em cinco décadas nas eleições dos Estados Unidos. Entretanto, o culpado por esse vexame é o presidente Donald Trump. Ele teve dois anos com maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, uma Suprema Corte conservadora e uma fase excepcional na economia do país com o avanço da inteligência artificial, mas preferiu abalar as instituições democráticas e até o Federal Reserve. Portanto, o pleito, com resultado totalmente favorável à oposição, com vitórias em redutos tradicionais do partido governista, funcionou como um referendo sobre o Governo Trump. Aliás, tal desfecho foi acompanhado no mundo todo devido a suas políticas intrusivas, como um programa tarifário que aqueceu a inflação nos EUA e uma nova roupagem da Doutrina Monroe na América Latina, de tentar impor a adesão dos países aos EUA. No caso do Brasil, o interesse pela eleição americana foi histórico, pois o Governo Trump adotou sobretaxas comerciais de cunho político e objetivos absurdos, contestando o sistema Pix e cobrando a abertura de mercado sem oferecer contrapartidas, em uma negociação baseada na pressão, não na diplomacia. O que mais impressiona é que os democratas não passam por uma fase de pujança política. O partido enfrenta uma crise interna, com o avanço da ala mais à esquerda, como se fosse um contraponto ao radicalismo dos trumpistas no Partido Republicano. Porém, a sigla da oposição ainda não demonstra se sua maioria mais ao centro saberá conviver com esse segmento mais identitário para fins de retomar a Casa Branca daqui a dois anos. Entretanto, os democratas passarão a deter em janeiro muito poder com o Legislativo. O partido conquistou 54 cadeiras no Senado, três acima da maioria simples, mas abaixo dos 67 para votar impeachment, e 240 na Câmara, 22 a mais do que o necessário para controlar a casa. Trump, que ameaçava questionar a eleição, acenou à oposição, afirmando que trabalhará com ela. Contudo, ele disse que utilizará o poder do veto e que dará indultos antecipados a assessores. Isso porque é previsível que a sigla dominante passe a abrir investigações de todo tipo. Outro detalhe importante é que a guinada aos democratas se sucedeu à vitória do presidente Lula, sendo analisado por muitos como um fenômeno com razões em comum. Espera-se que o Governo Lula invista na interlocução com a oposição americana, mas sem fustigar Trump, que ainda poderá tomar medidas extremas contra parceiros comerciais e na América Latina para mostrar que continua um presidente forte, e não enfraquecido como os analistas afirmam. Para o Brasil, o que interessa é conseguir a redução das tarifas e fazer negócios com o país que bem entender, sem interferência de uma potência externa.