A decisão da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de incluir alfabetização midiática e inteligência artificial no Pisa de 2029 não representa apenas uma atualização técnica do principal exame internacional de educação. Trata-se de um alerta inequívoco aos sistemas de ensino do mundo inteiro: formar estudantes capazes apenas de memorizar conteúdos já não basta. A escola do século 21 terá de preparar cidadãos aptos a interpretar, questionar, verificar e decidir em um ambiente dominado pela avalanche de informação, pela influência dos algoritmos e pela circulação massiva de desinformação. O anúncio feito em São Paulo pelo pesquisador Luis Francisco Vargas-Madriz, especialista do Pisa, durante o 4º Encontro Internacional de Educação Midiática, mostra que a educação global começa a reconhecer oficialmente um problema que já afeta democracias e relações sociais. A manipulação de informações em ambientes digitais deixou de ser fenômeno periférico. Hoje, interfere em eleições, estimula radicalizações, espalha fraudes, destrói reputações e compromete o debate público. Nesse cenário, a alfabetização midiática deixa de ser tema complementar para ocupar posição estratégica. Saber ler e escrever continua essencial, mas é igualmente urgente ensinar crianças e adolescentes a distinguir fato de opinião, compreender como funcionam os algoritmos, identificar conteúdos manipulados, reconhecer interesses por trás das mensagens e verificar a confiabilidade das fontes. O Pisa 2029 acerta ao aproximar a avaliação educacional das situações reais enfrentadas diariamente pelos jovens. O estudante contemporâneo não vive isolado dos ambientes digitais, ao contrário: forma opiniões, constrói vínculos sociais, consome informação e toma decisões em plataformas altamente influentes. Ignorar isso dentro da escola é condenar uma geração à vulnerabilidade intelectual. Mais importante ainda é a compreensão de que tecnologia não substitui capacidades humanas fundamentais. O novo eixo do Pisa enfatiza julgamento, ética, criatividade, responsabilidade e consciência social. Em tempos de inteligência artificial, a habilidade mais valiosa talvez seja justamente preservar o pensamento crítico diante da automação crescente. O Brasil precisa enxergar essa mudança como oportunidade e urgência. A expansão da educação midiática nas escolas públicas e privadas deve se transformar em política permanente, integrada aos currículos. Não se trata de criar uma disciplina isolada, mas de incorporar a leitura crítica das mídias ao cotidiano escolar. Entretanto, não haverá transformação consistente sem investir na formação dos professores. A maioria dos docentes aprende sozinha a lidar com tecnologias digitais. Capacitar professores significa oferecer formação continuada, recursos pedagógicos, segurança técnica e valorização profissional. São eles os mediadores capazes de transformar tecnologia em ferramenta de aprendizagem, cidadania e inclusão.