(Reprodução/X) O temporal que devastou Juiz de Fora e Ubá, na Zona da Mata mineira, causando 47 mortes, de acordo com o balanço das autoridades locais, é mais um trágico exemplo do aumento da força das chuvas. Especialistas apontaram a enxurrada, ocorrida na tarde e noite de segunda-feira, como reflexo das mudanças climáticas. Tempestades são típicas do verão do Sudeste, mas os cientistas dizem que o aquecimento do planeta as deixaram mais destruidoras. O que se percebe é que elas têm se manifestado cada vez arrasando uma região específica, como se revezassem os alvos – como a Baixada Santista em março de 2020, a Região Serrana Fluminense em 2011 e 2022, o Litoral Norte em janeiro de 2023 e o Rio Grande do Sul em maio e junho de 2024. Desta vez, na região de Juiz de Fora, o desfecho foi assustador,com pouco tempo para as famílias fugirem dos deslizamentos, ruas que em minutos se transformaram em rios com correnteza e cenas tristes, como a de uma casa de repouso alagada, com idosos boiando com colchões. Entretanto, quando a força da natureza se soma à ineficiência das cidades, a tragédia ganha proporções acentuadas. Juiz de Fora, com 540 mil habitantes, tem 130 mil morando em áreas expostas a deslizamentos ou inundações, um quadro muito parecido com o da Baixada Santista, do Rio de Janeiro e de São Paulo. A cada fenômeno desse com saldo elevado de vítimas e amplos registros da imprensa e das redes sociais, governadores e o presidente da ocasião visitam as regiões e anunciam verbas. Em Minas, o governador Romeu Zema prometeu antecipar repasses de R\$ 38 milhões para Juiz de Fora e R\$ 8 milhões para Ubá, que tem 103 mil habitantes. São valores que cobrem apenas emergências, sendo irrisórios para uma ação preventiva, que é tirar milhares de famílias das encostas. Petrópolis é um exemplo de como o poder público não consegue combater um problema que tem elo com o déficit habitacional. Após a trágica chuva de 2011, a população retornou para as áreas de risco, atingidas em 2022. Além das moradias em terrenos inadequados, faltou uma fiscalização mais rigorosa. Não dá para imaginar que as chuvas mais fortes deixarão de atormentar municípios com encostas habitadas ou vales inundáveis, mas há iniciativas preventivas ou soluções definitivas que apenas uma parcela dos municípios utiliza. Houve atrasos para entrega de moradias em bairros mais seguros no Rio Grande do Sul, famílias ainda insistem em ficar em áreas de risco no Litoral Norte e sirenes de alerta de deslizamento são adotadas somente em algumas regiões. Por outro lado, com a tragédia gaúcha, foram criadas normas que aceleram a liberação de recursos e as defesas civis passaram a ser incrementadas. Mas a percepção é de uma dificuldade para planejar soluções e executá-las, com celeridade – por exemplo, piscinões demoram a sair na Região Metropolitana de São Paulo. Nesse ritmo, as mortes e o fracasso das cidades perante a realidade climática vão continuar.