A explosão de casos de Covid-19 na Região Sul merece ser observada com muita atenção pelo estado de São Paulo devido à proximidade geográfica e por todo o País como exemplo de descuido com medidas de relaxamento. Pensou-se que Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com a demora para registro mais acentuado de infectados, não passariam pelos maus bocados que o novo coronavírus levou aos quatro cantos do Brasil. Por outro lado, os três estados agora despontando como epicentro da doença sinalizam que o vírus continuará com potencial para circular em território nacional por mais semanas, o que é péssimo para a retomada da economia e para melhorar a confiança para investir ou simplesmente consumir. No final das contas, o recado é claro. Ainda que as notificações de doentes e mortes estejam em queda na Baixada Santista, na Capital ou no Rio de Janeiro, os cuidados não poderão ser abandonados em hipótese alguma pelo menos até meados do semestre, pois ainda ficará a possibilidade de focos nas regiões que já passaram pela experiência mais drástica da covid-19. Deve-se lembrar que governos trabalham com estatísticas por uma questão de estratégia, mas para população a expectativa é de infecção quase zero e sem mortes, pois cada caso embute o drama anônimo de uma família inteira. A Região Sul prova que o País passa por uma espécie de banho do vírus, pois ele também se espalhou tardiamente por Minas Gerais e Centro-Oeste. O avanço é tão acentuado que Santa Catarina fechou suas praias e o Paraná retomou as restrições nos shoppings. Em Porto Alegre (RS), o prefeito Nelson Marchezan (PSDB) praticamente terceirizou para a população a decisão por um lockdown. Segundo ele, essa medida só teria sucesso se houvesse conscientização, mas é ele quem tem autoridade para impor medidas rigorosas. Assusta a rapidez com que os números aumentam. A Região Sul registrou o salto de 49.908 para 155.078 casos em 30 dias. Já as mortes pularam de 1.095 para 3.264. Por trás desse ritmo está a expectativa de que até então a demora para a doença avançar era motivo para relaxar o isolamento social. Duvidou-se da capacidade migratória do vírus pelo País e se trabalhou pela lógica de que há muitos leitos disponíveis, então não há necessidade suspender o convívio social. Blumenau (SC) reabriu o comércio no auge da pandemia em São Paulo. Agora, está tudo fechado, das academias e lojas aos hotéis e restaurantes. O principal erro do País foi descentralizar as decisões de combate à pandemia e não privilegiar as recomendações médicas, lembrando ainda que os prefeitos se viram pressionados em ano eleitoral. Agora, em um país de dimensões continentais não se pode baixar a guarda mesmo que regionalmente o vírus tenha arrefecido. Se em algum canto do Brasil há transmissões locais, fica o risco de surtos, com efeitos drásticos para a confiança na retomada da economia.