[[legacy_image_204055]] Não é a primeira vez que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) enfrenta dificuldades para realizar seu mais profundo levantamento, o Censo. Trata-se de um trabalho essencial que vai dar subsídios para tantos outros estudos que o órgão faz, que vão da inflação ao desemprego e do comportamental à saúde, ensino e PIB. Esses dados abrangentes também sustentam pesquisas das universidades e fundamentam teses de mestrados e doutorados e ainda levantamentos de mercado, que permitirão às empresas compreender os consumidores, gerando negócios e inovação. Portanto, o Censo é, na prática, uma instituição, a própria razão de existir do IBGE, motivo que deveria dar status de prioridade para suas atividades e de verbas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Entretanto, não é o que se viu nesta edição do Censo, que geralmente é realizado em ano de final zero para permitir uma comparação com a década passada (houve algo parecido em 1990, com o Censo realizado só em 1991 durante o Governo Collor). Adiado por falta de verbas e uma visão distorcida do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre o papel do Estado, o IBGE está apenas agora, nas ruas, para passar um pente-fino no perfil dos brasileiros. Aliás, quando as pesquisas de desemprego teimavam em não cair, no ano passado, Guedes disse que o IBGE usava métodos ultrapassados. Além da dificuldade de ter sua importância reconhecida pelo Governo, o Censo enfrenta outros gargalos, como o da violência. Historicamente, os agentes do Estado entravam sem dificuldades nas áreas periféricas e empobrecidas das capitais e grandes cidades, mas essas regiões foram dominadas pelo crime com a ausência do Poder Público, em um fenômeno que não é recente e se acentuou a partir dos anos 1990. Hoje, são locais desafiadores para os recenseadores, mas o IBGE soube se adaptar aos últimos tempos. Décadas atrás, o comando do órgão optou por dar prioridade à contratação de moradores dessas próprias comunidades, o que é bem razoável. O Censo e as equipes do IBGE enfrentam outra barreira, reflexo do medo da violência e das teorias da conspiração que se espalham pela internet. Na reportagem publicada ontem em A Tribuna, há relatos de medo de golpes mesmo mediante a apresentação de crachá e pessoal uniformizado e acusações de que os recenseadores estão a serviço dos interesses do governo - outros concluem que o IBGE está contra a atual gestão. Também é uma tradição achar que os dados serão usados pela Receita Federal, o que não tem cabimento. Como bem lembrou o coordenador de Área de Santos do Censo, Bruno Stoco de Oliveira, em entrevista à Reportagem, o IBGE é uma instituição do Estado e não de governo. O órgão, aliás, tem uma característica de escapar das notícias de disputa de indicações de cargos, o que lhe confere independência, muito importante para a confiabilidade em dados do próprio governo, cidadãos e empresas.