A compra da empresa brasileira Serra Verde, de Minaçu (GO), por um grupo americano, a USA Rare Earth (Usar), deve garantir o fluxo de investimentos para o segmento de terras raras no Brasil. Ao mesmo tempo, o negócio não traz grandes mudanças em relação ao controle da produção nacional por estrangeiros. A Serra Azul já pertencia a fundos dos Estados Unidos e Reino Unido. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem feito discursos em relação às terras raras nos moldes de “o petróleo é nosso”. Corretamente, Lula defende mais investimentos em terras raras, com a intenção de desenvolver não apenas a extração, mas também o refino, com tecnologias hoje dominadas pela China e que dependem de muito dinheiro. Há, ainda, um terceiro passo, mais difícil, o de desenvolver indústrias que utilizam esses minerais, como fabricantes de chips e de componentes altamente desenvolvidos para eletrônicos, carros elétricos e sistema de energia renovável, e as indústrias militar e aeroespacial. O País ambiciona transferência de tecnologia, hoje muito distante. Na prática, no quadro de atribuições da economia mundial, o Brasil é um fornecedor de commodities (alimentos, minérios e petróleo), ganhando muito dinheiro com isso, porém, sem o valor agregado. O Brasil possui grandes indústrias sofisticadas, mas não como nos países ricos. Em Minaçu, a Serra Verde já extrai neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, utilizados na produção de ímãs para as indústrias de alta tecnologia. Os quatro minerais estão entre os 17 da tabela periódica (da Química) considerados terras raras. O principal problema desse segmento não é a sua raridade. Há até abundância, mas a disseminação somada à falta de domínio técnico dificulta a comercialidade. O Brasil tem a segunda maior reserva mundial, o que na verdade é uma estimativa. O problema é passar a ter ganho de escala e lucrar. A Agência Nacional de Mineração concedeu mais de mil pedidos de pesquisas para identificar potenciais reservas na Bahia, Minas Gerais e Goiás. Em Minaçu está a única produção nacional, antes mesmo das terras raras se tornarem tema da geopolítica e prioridade do presidente americano Donald Trump para superar o controle da China sobre esses minérios. O Brasil ganhou visibilidade com essa briga e tem parcerias encaminhadas com a União Europeia e Canadá. Entretanto, a venda da Serra Verde, um dos maiores negócios de terras raras do mundo, sem considerar a China, é o que saiu do papel por enquanto. Aliás, a USA Rare Earth não tem tradição nessa área e passou a investir após estímulo do Governo Trump. Do lado do Brasil, já há até projeto no Congresso que prevê criação de estatal de terras raras, sem fechar o mercado para o setor privado – mas o setor público não tem fôlego para investir. O que se tem é muito discurso dos políticos e interesse de fundos de investimento, mas ainda não há sinais concretos de que isso vai jorrar bilhões de dólares na economia.