(Arquivo/Estadão Conteúdo) Na mesma semana em que Rússia e Coreia do Norte firmaram pacto de defesa mútua, Israel tomou os trâmites internos para, se necessário, atacar o Hezbollah, o que exigiria abrir nova frente de guerra no Líbano. São dois exemplos que consolidam as novas tendências da geopolítica, de baixa disposição ao diálogo e da formação de blocos de países mirando conflitos regionais ou mesmo mundial. O confronto interminável na Ucrânia e entre Israel e Hamas, a eterna promessa chinesa de dominar Taiwan, que a considera província rebelde, as embarcações militares russas e americanas em Cuba e as guerras pouco lembradas pelo Ocidente na África, em especial no Sudão, provam que o mundo se radicalizou, sem paz no horizonte. A parceria da Rússia com a Coreia do Norte é resultado dessa estratégia de blocos. Isolados econômica e diplomaticamente, esses países fizeram promessas de um ajudar o outro em caso de agressão por terceiros, mas sem divulgar o que isso significa. Não está claro se os russos vão fornecer tecnologia militar mais avançada aos norte-coreanos, que já realizaram seis testes nucleares. De concreto, o regime comunista começou a fornecer a Moscou munições para a guerra contra a Ucrânia, o que demonstra que o cerco ocidental à Rússia teve resultados militares. Por outro lado, não se sabe quanto realmente a Rússia apoiará a Coreia do Norte, um regime sem freio, a ponto de não irritar a China, potência que não abrirá mão de sua influência regional. Ou ainda como esse pacto entre Vladimir Putin e Kim Jong-un poderia ser útil em caso de invasão de Taiwan, que tem o compromisso de apoio americano. Nesse cenário de blocos, desenvolve-se uma ampla restrição econômica dos Estados Unidos à China, mais voltada à alta tecnologia. Por enquanto, isso não significa um rompimento total, pois o país asiático continua sendo o grande fornecedor de manufaturados ao Ocidente, aliás, ao mundo todo, assim ampliando seus laços comerciais. Há bons anos os chineses já tomaram o lugar dos americanos como principal parceiro comercial de muitos países, como o Brasil. Porém, a formação desses blocos econômico-militares não significa total sintonia entre seus integrantes. É o caso de Israel e Estados Unidos, com Tel Aviv seguindo na política belicosa do premiê Benjamin Netanyahu, o que contraria o Governo Biden, que assumiu uma postura mais pacifista às vésperas da eleição nos EUA. A história mostra tempos de predisposição ao conflito intercalados com períodos de calmaria e tratados de paz, mas sob o risco das tragédias de grandes guerras. Fica a dúvida se daqui a alguns poucos anos as potências vão voltar a conversar, influenciando os atores regionais. Há ainda o fator tecnológico, de quanto ele poderá impulsionar o poderio militar, e se todos os lados conseguirão acesso, por exemplo, à inteligência artificial – que, por enquanto, está sendo ditada pelos Estados Unidos.