(Reprodução/Adobe Stock) O lançamento do Desenrola 2.0, na semana passada, recoloca o Brasil diante de um problema que já ultrapassou o campo das finanças pessoais para se tornar questão econômica e social de primeira ordem. Com quase 90 milhões de brasileiros negativados, o País convive com uma massa crescente de consumidores sem acesso ao crédito, sufocados por juros elevados e incapazes de reorganizar a própria vida financeira. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Sob esse aspecto, o programa do Governo Federal parte de uma intenção legítima. Ao permitir renegociações com descontos, juros menores e parcelamentos mais longos, a iniciativa pode devolver capacidade de consumo a milhões de pessoas, estimular a atividade econômica e aliviar o orçamento de famílias presas em dívidas praticamente impagáveis. É difícil negar que exista mérito nisso. Uma economia não cresce de forma consistente quando parte expressiva da população está excluída do sistema formal de crédito. Comércio, serviços e pequenos negócios também sofrem os efeitos da inadimplência em massa. O problema é que o Desenrola 2.0 atua mais sobre as consequências do que sobre as causas do endividamento brasileiro. O País continua convivendo com crédito caro, renda insuficiente, baixa educação financeira e estímulos permanentes ao consumo impulsivo. Nos últimos anos, surgiu ainda um agravante evidente: a explosão das apostas esportivas online. As chamadas bets passaram a ocupar espaço relevante no orçamento de milhares de famílias. Em muitos casos, venderam a ilusão do ganho fácil em meio às dificuldades econômicas. O resultado aparece agora em relatos de pessoas que recorreram a empréstimos, cheque especial e cartão de crédito para sustentar sucessivas apostas. Ignorar esse fenômeno compromete a eficácia de qualquer programa de renegociação. Também chama atenção o momento político escolhido para o lançamento. O governo enfrenta desgaste após derrotas importantes no Congresso Nacional, e medidas de forte apelo popular inevitavelmente despertam suspeitas de cálculo eleitoral. O timing reforça a percepção de tentativa de recuperação de apoio junto às camadas mais vulneráveis da população. Ainda assim, seria simplista reduzir o Desenrola 2.0 apenas a uma manobra política. Governos têm obrigação de agir diante de crises econômicas e sociais, mesmo quando isso também produz vantagens eleitorais. O erro estaria em vender o programa como solução definitiva. O Brasil precisa discutir educação financeira, redução estrutural dos juros ao consumidor, crédito responsável e regulamentação mais rigorosa das apostas online. Sem isso, continuará apenas renegociando dívidas periodicamente, sem impedir que milhões de brasileiros retornem ao mesmo ciclo de inadimplência. O Desenrola 2.0 pode ser necessário no curto prazo, mas limpar nomes não significa, necessariamente, resolver o problema do endividamento nacional.