Poucas regiões brasileiras têm relação tão intensa com as águas quanto a Baixada Santista. Mar, estuário, rios e canais definem sua geografia e sua economia. É contraditório, portanto, que, em pleno debate sobre os gargalos da mobilidade, esse enorme potencial permaneça praticamente fora do transporte público regional. A implantação de uma rede aquaviária de passageiros é discutida há anos. Estudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), de 2015, analisou sua viabilidade técnica e financeira e constatou, por exemplo, que o percurso entre o Distrito de Vicente de Carvalho, em Guarujá, e Bertioga poderia ter o tempo reduzido pela metade. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A rapidez é uma vantagem evidente, justamente quando tanto se fala em melhorar a mobilidade metropolitana. A água pode encurtar distâncias que, por terra, exigem trajetos demorados e congestionados. Uma rede bem planejada também poderia ampliar o acesso ao transporte público em áreas hoje menos atendidas, especialmente periferias próximas a rios, canais e estuários. Há ainda a questão ambiental. Embarcações modernas, eficientes e com tecnologias de menor emissão podem integrar uma política de mobilidade mais sustentável. A hidrovia aproveita caminhos naturais existentes, embora qualquer implantação deva respeitar rigorosamente manguezais e outros ecossistemas sensíveis. Não seria uma experiência inédita. Londres utiliza o Tâmisa no transporte regular de passageiros, Nova Iorque ampliou sua rede de ferries, Sydney mantém balsas integradas ao transporte público e Istambul tem no transporte pelo Bósforo parte essencial de sua mobilidade. A Baixada Santista também pode criar seu próprio modelo. Anos atrás, proposta nesse sentido foi apresentada pela SP Hidro ao Governo do Estado. Esta semana, o projeto voltou à pauta ao ser apresentado ao prefeito de Praia Grande, Alberto Mourão (MDB), que se mostrou empenhado em levá-lo ao fórum dos prefeitos, o Condesb. Quando apresentado ao Estado, havia previsão de financiamento de R\$ 162 milhões do Fundo da Marinha Mercante para 14 embarcações, via BNDES. A empresa propunha uma parceria público-privada de 35 anos, com responsabilidades divididas entre iniciativa privada e Estado. É necessário, sempre, avaliar cuidadosamente custos, demanda, subsídios, impactos ambientais, localização dos terminais e integra-ção com ônibus e VLT, mas parece claro que nada justifica engavetar o projeto sem ao menos entender sua viabilidade. Um caminho seria começar com um projeto-piloto, em um corredor de demanda comprovada. Seria possível medir passageiros transportados, redução do tempo de viagem, custos e até satisfação dos usuários. Se é preciso aperfeiçoar o projeto, que se aperfeiçoe. Se é necessário começar menor, que se faça um piloto. A região é cercada e atravessada por água, um potencial competitivo que carece de melhor aproveitamento.