Quando investimos no autocuidado, estamos enviando uma mensagem poderosa a nós mesmos de que merecemos atenção, carinho e respeito (Alberto Marques/Arquivo AT) Durante muito tempo, a saúde mental ocupou um espaço secundário nas políticas públicas. Era tratada como um tema restrito aos consultórios, aos hospitais especializados ou, pior, cercada por preconceitos que afastavam milhões de pessoas do diagnóstico e do tratamento. Felizmente, essa realidade começa a mudar. Hoje, não há país que possa discutir saúde pública sem colocar a saúde mental entre suas prioridades. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O desafio é mundial. A Organização Mundial da Saúde alerta há anos para o crescimento dos transtornos de ansiedade, depressão e outros adoecimentos psíquicos, impulsionados por fatores como as transformações nas relações de trabalho, o ambiente digital, a insegurança econômica e as consequências ainda existentes da pandemia. O Brasil não está à margem desse cenário. Ao contrário, figura entre os países com maior prevalência de transtornos de ansiedade, enquanto os afastamentos do trabalho por doenças mentais atingem níveis históricos. A atualização da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que desde maio passou a exigir das empresas a identificação e o monitoramento desses riscos psicossociais, é um reconhecimento de que cuidar da saúde mental também significa prevenir o adoecimento antes que ele aconteça. Nesse contexto, ganha relevância a pesquisa nacional sobre saúde mental conduzida pelo Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo. O estudo tem potencial para oferecer um retrato inédito da saúde emocional dos brasileiros, identificando vulnerabilidades, diferenças regionais e fatores associados ao sofrimento psíquico. Seus resultados poderão orientar investimentos, fortalecer a rede de atenção psicossocial e responder a perguntas fundamentais para o planejamento do SUS. Entre as respostas mais aguardadas está a compreensão do que vem acontecendo com os jovens. Pesquisas recentes já indicam que brasileiros entre 16 e 24 anos apresentam os piores indicadores de saúde mental entre todas as faixas etárias. Essa geração cresceu em um ambiente hiperconectado, convive com intensa exposição às redes sociais, enfrenta incertezas profissionais e carrega pressões que nem sempre encontram acolhimento na família, na escola ou nos serviços de saúde. A nova NR-1 representa um avanço importante ao incorporar a saúde mental à gestão dos riscos ocupacionais, mas nenhuma norma será suficiente se governos, empresas, escolas e famílias não compreenderem que o sofrimento psíquico merece a mesma atenção das doenças cardiovasculares, câncer ou diabetes. A pesquisa do Ministério da Saúde poderá marcar um divisor de águas. Espera-se que seus resultados não fiquem restritos aos relatórios técnicos, mas que sirvam para orientar políticas permanentes, ampliar o acesso ao cuidado e lembrar que promover saúde mental é, antes de tudo, promover desenvolvimento humano e social.